SE EU MORASSE AQUI

Talvez eu fosse como o Tio Felix, de Dionísio Cerqueira, que mora no lado argentino mas passa a fronteira e vai todo dia ao Brasil tomar uma boa caña feita em Santa Cartarina: “soy una persona tranquila y tengo muy amigos en ambos lados de la frontera. Todos me llaman tio Felix, pero no soy tio de nadie.” E vive feliz tendo se autoconcedido dupla nacionalidade.
Mas esse lugar aqui não fica na fronteira. Fica no fim do mundo como dizem os próprios argentinos. Ushuaia é o mais extremo aglomerado de gente ao sul do planeta. Depois dela só gelo. Se eu morasse aqui eu teria um casinha simples bem aquecida com a gravura de um velho índio pregada na parede. Não desses índios americanos que a gente via no cinema antigamente mas um índio latino, que vive no frio e tem a pele mais escura que vermelha. E eu olharia a gravura do velho índio e sentiria uma força interior para resistir a longa saudade do mundo e dos tempos que ficaram mais ao norte.
De manhã, repetiria o gesto banal de olhar as montanhas geladas e a névoa encobrindo os horizontes, e o sol fraco que não consegue se definir entre inverno e verão. Beber um chocolate quente na panaderia do fim da rua e ficar imaginado de onde vem essa bebida. Quem se dispõe a importar alimentos e traze-los até aqui para abastecer esses poucos milhares de pessoas que vivem esquecidas entre os mar e as montanhas? Depois andar pelos campos frios, contra o vento gelado vendo as ovelhas ruminarem o feno e soltar fumaça pelas ventas.
De tarde me sentaria na mesa de um bar com dois ou três conhecidos e depois de dois ou três conhaques, certamente descambaríamos no maior dilema de brasileiros e argentinos, cuja resposta até o Papa quer saber: quem foi maior, Pelé ou Maradona? Os argentinos levariam vantagem porque eu estaria sozinho defendendo o patrimônio nacional e quando todos se pusessem a rir de mim, um velho sombrio e taciturno, sentado isoladamente no fundo do bar, diria com voz pausada e rouca: “Pelé es mejor”. E todos fariam silêncio.
No anoitecer eu me aqueceria na pequena lareira e adormeceria na cadeira de balanço e depois me deitaria numa cama de madeira e me cobria com pele de lhama comprada no porto e sonharia um sonho diferente em cada noite. Não sei se seria feliz, mas acho que não seria infeliz.
Ushuaia - Terra do Fogo - Dez/2014