UM PAR DE MEIAS

- A senhora sabe onde posso comprar um par de meias?

Seria uma pergunta banal, que qualquer um poderia responder, se não fosse feita na calçada de uma cidade média do interior do Paraná, às oito horas da noite, horário em que parte do comércio já havia baixado as portas.

Ocorreu-me, depois de penosas andanças, chegar a essa cidade onde eu teria um compromisso na manhã seguinte. E depois de encontrar um quarto de hotel que me acolhera para um longo banho que lavasse todo meu cansaço e minha inquietação, senti fome e pensei em sair à rua a procura de uma cantina que me servisse ao menos  um hamburger e um guaraná. E quando quis calçar os sapatos, percebi que não tinha na mala mais nenhuma meia limpa.

Sou dessas pessoas que não conseguem andar sem meias embora jamais esqueça os antigos versos da infância: “O sino da igreja chamava pra missa / A areia era fina nos pés sem sapatos”.  E como as meias usadas me deixassem desconfortável e eu não tivesse tempo lavá-las no chuveiro e secá-las até a manhã seguinte, saio para comprar um par de meias novo.     

O hotel que me hospedara ficava numa longa avenida de nome Juscelino Kubitschek, que as plaquinhas das esquinas abreviavam para Av. JK. Da porta do hotel, olhei para um lado e vi que a avenida seguia por uns dois quilômetros e que no sentido contrário teria outros dois, com um leve aclive, difícil de transpor sob uma temperatura de trinta e cinco graus. Escolho o lado direito, que é plano e vou andando na calçada na esperança de encontrar uma loja aberta que entre outras mercadorias, venda também meias para os pés. Mas nessa longa avenida, tão inútil para mim como o governo que lhe deu o nome, só encontro lojas de ferramentas, de colchões e terrenos vazios. Sim, é preciso vender ferramentas para todo tipo de conserto deste mundo já estragado, e é preciso vender colchões para tornar mais digno o sono dos justos que ainda restam neste planeta. E é preciso que as avenidas conservem terrenos vazios para a especulação imobiliária e o sonho dos que ainda não têm onde morar. Quanto às meias, o jeito é pedir informação.

Pergunto então a uma moça se ela sabe onde tem uma loja que venda meias. Ela não sabe. Ou, se sabe, não consegue me explicar e segue seu caminho como se eu fosse só um forasteiro tentando puxar conversa. Minha esperança se renova nos passos da senhora que vem se aproximando. Repito a pergunta e ela me olha meio estranho: “Por que o senhor quer comprar um par de meias?”  Parece tão simples de responder mas me sinto como se estivesse na presença de um juiz que me julgasse por crime de assassinato: “Por que o senhor atirou na vítima?”

Vejo à distância uma loja de confecções com o nome gravado na fachada: ESTILO. Caminho até lá, mas percebo que meias não compõem o elenco de itens que vestem um homem com estilo. Lá eles não vendem meias e a atendente me aconselha a ir ao shopping que fica a dois quilômetros lá pelos lados do centro da cidade.

E quando saio da loja Estilo, uma banda, dessas que ainda passam tocando em algum longínquo e remoto canto deste Brasil,  surge com homens vestidos de calças brancas e blusas vermelhas, repicando as caixas, soprando as flautas e trombones. Vou ao bar do lado, peço uma cerveja e fico ouvindo a banda tocar. Já não tenho vontade de comprar meias; posso andar com os pés nus dentro dos sapatos.  É preciso ouvir em silêncio a banda tocar como alguem que estivesse à toa na vida, deixar-se anoitecer com o sol que vai se escondendo e sentir uma súbita vontade de cantar. Comprar meias não é preciso.

Angelo Humberto Anccilotto (Jan/2015)