VERDADES, POR APROXIMAÇÃO

Na década de 1980, quando o Brasil tinha a segunda maior inflação do planeta, quando se trocava o Ministro da Fazenda de trinta e seis em trinta e seis dias, a nossa expectativa no fim de cada mês era saber pelos noticiários a quanto tinha chegado a inflação. 18%? 16,5%? 21%, 14%? E depois da notícia, a reação nacional era a mesma: Só isso? Como pode se só a gasolina subiu 35%?  - protestavam os assalariados, os pequenos empresários, os pais com filhos na escola e as donas de casa nos pegue-pagues do mundo. O índice calculado pela FIPE naquela época causava desconfiança e manifestações de incredulidade.

Naquele tempo eu era graduando de Economia e ouvi muitas vezes amigos de outras ciências ou de nenhuma delas me perguntarem, talvez por insulto, talvez por duvidarem que meu curso tivesse alguma utilidade, se eu concordava com índice que o governo divulgava. Depois de vacilar algumas vezes  diante de uma pergunta cuja resposta eu mesmo jamais tive certeza, resolvi inverter os papeis, desafiando meus inquisidores: Se você não concorda com o índice, calcule e prove que ele está errado.

Há na História, na Ciência, no Esporte, na Vida enfim, um monte de fatos verdadeiros não pela veracidade inconteste de sua origem, mas pela impotência das contraprovas. Aprendi isso discutindo a inflação do Brasil e nunca mais sofri diante da dualidade dos problemas. Se telefono a alguém por uma razão importante e outra pessoa atende e diz que vai chamá-lo  e retorna alguns segundos depois dizendo que ele não está, acredito e deligo. Não tem jeito de eu me transportar pelo fio do telefone e me materializar na frente dele antes que conclua a frase: “Fala que eu não estou”.

Um dia desses li numa revista que o peso somado de todas as formigas que existem no mundo é igual ao peso de toda a população da Terra. Eu acho que quem fez tal afirmação ou sofre de complexo de inferioridade humana ou de megalomania dos invertebrados. No entanto, não posso contradizê-lo porque teria que sair pelo mundo a fora procurando formigueiros, levando ferroadas e indagando a zangões e rainhas quantas formigas vivem ali e qual o peso de cada uma delas.  Só depois de varrer o planeta de oriente a ocidente recenseando os insetos é que estaria habilitado a proclamar que a afirmação do ilustre biólogo é falsa.  Como ainda gozo de alguma sanidade mental, não posso me dar ao luxo de sair por aí contando e pesando formigas, por isso fiquemos com a verdade da absurda equação: o peso das formigas da terra é igual ao peso da população humana.

Sabemos também que a distância entre o Sol e a Terra é de 150 milhões de quilômetros. Eu acredito em Astronomia, respeito o esforço dos astrônomos e reconheço o potencial tecnológico de que dispõem para medir a distância entre os astros de uma galáxia, mas tenho dúvida: a julgar pelo calor dos últimos anos, tenho a impressão que o Sol não está a mais do que quinhentos quilômetros da terra. Quem foi que mediu com tamanha precisão esses cento e cinquenta milhões? Não seriam cento e quarenta e cinco e meio? Ou cento e cinquenta e três? Como sei que não haverá na Terra, nos próximos dez milhões de anos, algum material que resista a temperatura solar para ser introduzido no núcleo do astro rei e aferir com segurança a distância entre ele e nós, aceitemos esses 150 milhões e não se fala mais nisso.

Para os amantes do futebol há uma simbologia respeitada, cuja ocorrência se deu em 19 de novembro de 1969. Nessa  data Pelé marcou aquele que é considerado o seu milésimo gol. Ao que se sabe, Pelé não chegava em casa depois de cada jogo e anotava num caderninho os gols que tinha feito. Sim, existem as súmulas das partidas, mas quem foi que juntou e somou todas essas súmulas? E os jogos amistosos também valem?  E os gols marcados no tempo em que era amador? E os gols feitos nas peladas de Três Corações e de Bauru foram contados? Quem joga ou jogou futebol sabe que a emoção de marcar um gol é a mesma seja ele assinalado no estádio do Maracanã, da Bomboneira, de Wembley ou nos campinhos no meio do pasto cujas traves sejam representadas pelos chinelos de um dos jogadores. Mas é bobagem divagar sobre isso, acatemos e referenciemos o milésimo gol do Rei em sua data oficial.

Recentemente aprendi que se eu desejasse levar a juízo os autores dessas afirmações, eles teriam que provar que suas proposições são sustentáveis, mas o fato de não provarem não faria de mim o vencedor, porque aí eu é que teria que provar que tais proposições são falsas, e em não conseguindo, estabelecer-se-ia um  caso dúvida insanada. Mas para quê perder tempo com isso? Na ausência de provas fica o dito pelo dito mesmo e aceitemos que tudo está aproximadamente certo. Além do mais, essa conversa já está longa e o meu objetivo é publicar crônicas que venha a entreter o leitor com uma leitura não superior a cinco minutos. Duvida? Então prove.   

Angelo Humberto Anccilotto (Jan/2015)