O DIA EM QUE NÃO MORRI

No livro “O Meu Pé de Laranja Lima”, José Mauro de Vasconcelos se pergunta: “Por que contam tantas coisas às criancinhas?”  Sim, sabemos que é necessário contar estórias às crianças. Estórias que as enlevem e as façam imaginar coisas (coisas boas porque as coisas ruins da vida elas imaginarão sozinhas quando crescerem). Mas certos adultos contam estórias para amedrontar as crianças. Com medo de que elas cometam alguma desobediência, eles contam estórias dando exemplo de crianças que morreram por cometer tal ato. Como beber leite e chupar manga, por exemplo.

Na esquina da Av. Paulista com a Padre João Manuel, aqui em São Paulo, há uma lanchonete que vende lanches e suco de frutas naturais. Dizer lanchonete é ser generoso com o local, pois na verdade é um cubículo de seis metros de frente por uns dois de fundo, embora seja devidamente higienizado e muito bem frequentado. (Se alguém tiver ideia de abrir um estabelecimento da cadeia alimentar na capital paulista, escolha o menor espaço possível, pois as pessoas aqui tem adoração por lugares apertados e filas de espera). Nesses dois metros de fundo da lanchonete existe um balcão. Do lado de lá se acumulam os funcionários, os liquidificadores e a chapa de fazer lanches. Do lado de cá sobram uns cinquenta centímetros para os clientes transitarem e beberem o suco. Às vezes, ao levar o copo à boca não é mais possível descer o braço, pois seu espaço já foi ocupado. É preciso ficar segurando o copo na altura do rosto, com o cotovelo raspando nos ombros dos outros. Mas, por ser um local de sucos naturais, o sacrifício tem hora que vale a pena.  De vez em quando é bom fugir do trabalho e dar um pulo lá, por volta das quatro da tarde, quando não há a mesma concentração de gente que tem na hora do almoço, para beber  um suco de laranja ou de limão, conforme a deficiência de vitamina C no organismo.

Então, ocorreu que um dia desses, de calor forte, eu estava lá e vi aparecer uma jovem pedindo que lhe preparassem uma vitamina de manga com leite. Tive vontade de gritar: Moça, pelo amor de Deus, não faz isso! Manga com leite é veneno e mata mais que estricnina, como na música de Adoniran Barboza. Mas sei que os jovens de hoje quebram tabus, derrubam paradigmas e desafiam nossas velhas crenças e costumes, por isso imagino que ela me olharia com ar de superioridade me achando um velho caipira do interior que ainda acredita nas tolices de antigamente.

Mas carrego profundamente em minhas raízes o poder letal da manga com leite. Herança das estórias que contam às criancinhas, quando por centenas de vezes fui avisado pelos mais velhos que não misturasse as duas coisas. Ou a manga ou o leite. As duas juntas era morte certa. Saí rapidamente da lanchonete com medo de ver a moça beber a vitamina e morrer na minha frente. Eu seria culpado por não tê-la alertado do risco que corria.

E essa minha apreensão da moça bebendo leite com maga vem de um dia que passei esperando a morte. Eu devia ter sete ou oito anos e uma vizinha me oferecera generosamente um copo de leite com chocolate. Irrecusável. Tomei com gosto. Era o mês de dezembro, época de férias da escola e depois de tomar o leite fui para casa, mas no meio do caminho havia um pé de manga. Nunca esquecerei que havia um pé de manga no meio do cominho. Nunca tinha tomado leite na vizinha, por isso não foi difícil me esquecer completamente do que tinha feito. Trepado nos galhos, já havia devorado duas mangas amarelinhas, doces feito mel, quando me veio a lembrança do copo de leite bebido cerca de vinte minutos atrás. O susto foi tão grande que o coração parece ter saltado do peito e enroscado na garganta.

Meu primeiro impulso foi descer rápido antes que caísse morto do galho como um pequeno pássaro apedrejado. Minha aflição veio em seguida a se transformar numa grande tristeza. Minha hora chegara e eu olhava tudo em minha volta com um olhar de despedida. O próprio pé de manga, tão amigo e tão carregado, iria fazer sombra para o meu último suspiro. O cafezal, os pés de milho, a bola de capotão, a areia do terreiro tudo isto ficaria neste mundo. Senti um certo arrependimento dos pequenos pecados cometidos. O estilingue no pescoço era um tormento a me empurrar para o inferno onde eu expiaria a culpa dos atentados cometidos contra a vida de pobres pássaros indefesos.

O tempo ia passando lentamente e eu  aguardava as convulsões que viriam em instantes; meus olhos iriam arder, eu sentiria uma tontura forte demais; o leite coagulado no contato com a manga produziria toxinas mortais no organismo que iriam me fazer parar de respirar; eu desmaiaria e não reabriria os olhos outra vez. Levava instintivamente a mão ao peito para sondar se o coração estava falhando, mas no ritmo das batidas pulsava um ardente desejo de viver. Não haveria no Céu uma força divina, um anjo da guarda que se compadecesse do meu desespero? Meu ato fora involuntário, não era justo morrer assim, por um simples esquecimento.

Bem, o título desta crônica não fornece suspense. O dia em que não morri, indica por si próprio que de fato eu não morri. Como a moça da lanchonete, que apreciou sua vitamina com prazer e agora deve estar se olhando no espelho e se achando mais bonita, provavelmente pensando: a manga com leite está fazendo bem para minha pele. Eu, por mim, não me arrisco de novo. Vitamina só com mamão, banana ou abacate. Minha luta contra a morte naquela manhã foi árdua, seria muita imprudência oferecer-lhe outra chance.

Angelo Humberto Anccilotto (Dez/2011)