CONVERSA DE IRMÃOS

“Por que você fica tanto tempo longe? Demora tanto para dar notícia! A gente fica sem saber como você está. Todo mundo fica preocupado. A mãe reclama que você não aparece, fica pedindo para eu ligar, mas você nunca para em lugar nenhum. Nem no celular a gente te acha. Você vive trocando os chips. A mãe fala que você esqueceu a gente. Eu falo sério, ela se preocupa muito com você e você não está nem aí.

Por que você não arruma um emprego fixo? Para com esse negócio de free lancer. Agora que você já se formou, procura alguma coisa melhor. Emprego não está tão difícil assim. Aqui mesmo, se você quiser, você arruma. Não precisa ficar em Belo Horizonte. Se você quiser eu posso ver para você, quando tiver alguma coisa eu te aviso.

É verdade. A mãe ia ficar contente, ela sempre comenta que não se conforma com você viajando por aí o tempo todo. Você sabe, ela já está velha; depois que o pai morreu ela se sente muito só, se você estivesse aqui, fazia companhia para ela. Tem vez que eu chego da escola à noite e ela ainda está acordada, fala que está sem sono, que não vai conseguir dormir. Fico morrendo de pena.

Você parou de fumar? Parou nada, né? Estou vendo o maço aí na mochila. Por que você não para? Hoje em dia ninguém mais fuma. Ainda bem. Isso dá câncer, sabia? Para enquanto é cedo, depois que você ficar velho não adianta mais. É sério isso. Lá na faculdade tem palestra direto sobre cigarro. Eles falam que menos de um terço da população do mundo é fumante. Há uns trinta anos eram dois terços. Viu como diminuiu?

Ah, sabe aquela chuva que deu aqui na semana passada? Matou dois cavalos do tio. Um raio caiu e pegou bem neles. O tio falou que foi porque eles estavam perto da cerca. O poste da cerca virou carvão, ficou tudo queimado  onde eles estavam. Um era aquele branco, mansinho, eu adorava ele. O outro era um baio da cara manchada, lembra? Você andou nele. Nossa, dava uma pena ver eles mortos.

E o ombro sarou? Lembra que da última vez que você veio, você estava reclamando de dor. Estava inchado. Você foi ao médico?  Não, né?  Tem que ir, precisa ver o que é. E se for alguma coisa mais séria? Você não se cuida mesmo, por isso que a mãe fica preocupada. Você não faz ideia do quanto ela se preocupa com você. Todo dia ela fala: Onde será que ele está? Eu falo: Ah, mãe, se acontecer alguma coisa a gente fica sabendo; noticia ruim a gente recebe logo. Ela fica brava quando eu falo isso.  Pegou os doces que a dona Dolores deu? E o queijo? Guarda na geladeira, tá? Se deixar fora, estraga...”

Coloquei o título no alto da página e comecei a relatar esta história que presenciei há alguns dias e só agora lendo o que escrevi me dei conta de que o título correto talvez fosse: Conversa de Irmã. Pois só a moça falava. O rapaz limitava-se a olhá-la com uma vaga expressão de carinho e tédio, cruzando e descruzando os braços, levando as mãos ao bolso, consultando as horas no pulso, levantando-se e indo até o limite da plataforma, espichando o pescoço para enxergar além da curva da estrada de ferro se o trem vinha chegando naquela estaçãozinha antiga e pobre do sul de Minas, onde esse meio de transporte, já extinto em muitas regiões do Brasil, sobrevive a duras penas.

E como toda espera uma hora acaba, o trem finalmente chegou. O rapaz ajeitou a mochila nas costas, levantou outra bagagem do chão, ia embarcar, a irmã conteve-lhe a pressa abraçando-o demoradamente como se quisesse prender o tempo entre os braços para retardar a partida. Depois beijou-lhe o rosto fraternalmente e recomendou-lhe que fosse com Deus. Enquanto ainda podiam se avistar, ela fez um gesto com as mãos para que ele se lembrasse de telefonar.

A locomotiva partiu como um potro gigante marchando mansamente sobre os trilhos. A moça deixou-se ficar mais algum tempo na plataforma olhando o trem que desaparecia entre as colinas. Percebi naquele longo olhar resignado e triste a nobre inquietação de uma alma transida de saudade contraposta à suave ternura dos que não podem lutar contra o destino.

Pensei, com certa emoção, em todos os irmãos que se dispersam no mundo.    

Angelo Humberto Anccilotto (Out/2009)