DE VIDA E DE MORTE

Numa hiper equipada sala de cirurgia de um daqueles ultramodernos institutos cardiológicos de um desses países super avançados, abriu-se o peito de um homem e retiraram de lá um coração lento e cansado de muitas emoções – nem todas agradáveis – e substituíram-no por um mais jovem e saudável.  O transplante foi um sucesso; o homem não apenas sobreviveu como viveu depois. Ao final da operação os familiares procuraram o cirurgião-chefe e agradeceram pelo êxito: “Obrigado, doutor, estamos aliviados!”

Na mesma rua, do outro lado da calçada, havia uma clínica para onde se dirigia um casal de aspecto apreensivo. O médico que aguardava encaminhou o homem e a mulher ao seu consultório e examinando minuciosamente a gestante, balançou a cabeça afirmativamente no final da consulta: “Está bem, estejam aqui na semana que vem. Nós vamos tirar o feto”.  O homem, com um sorriso resplandecendo no rosto, apertou a mão do obstetra agradecendo-o: “Obrigado, doutor, estamos aliviados!”

Num moderno centro urbano de um próspero continente, numa das cidades mais importantes do mundo, um moderno arranha-céu, cujo design da construção podia matar de inveja qualquer arquiteto aspirante, ardia em chamas. Diversas guarnições do corpo de bombeiros se juntaram no local para combater o inimigo incandescente. É verdade que muitas pessoas se salvaram por si mesmas, algumas outras morreram, mas a coragem e a perícia dos soldados foram determinantes para resgatar muitas vidas que já não tinham esperança de escapar e pareciam condenadas ao fogo daquele inferno. Mais de duzentas pessoas encontravam-se nessa situação e foram salvas pelos bombeiros. No fim de tudo um deles contava emocionado a um repórter: “ Hoje demos uma prova da nossa coragem. Mostramos ao mundo do que somos capazes!”

Naquela mesma tarde, dois terroristas oriundos de uma dessas pátrias clandestinas, que as outras pátrias não reconhecem, sequestraram um avião com mais de duzentos passageiros a bordo. Desviaram sua rota e negociavam com a torre um pouso tranquilo ao mesmo tempo em que deixavam claras suas reivindicações: a libertação de presos políticos aliados em vários cantos do mundo. Mas nem só de uma boa conversa depende o sucesso de um sequestro. Cometeram um erro estratégico e concluíram que estariam irremediavelmente perdidos quando aterrissassem. Armados até os dentes de explosivos como estavam não tiveram dúvidas: explodiram a aeronave nas alturas não dando chance de sobrevivência nem a eles próprios. Antes de puxar o pino de uma granada um deles gritou nos ares: “O mundo precisa reconhecer nossa legitimidade. Hoje vamos dar uma prova de nossa coragem. Vamos mostrar ao mundo do que somos capazes!”

Num importante laboratório de uma poderosa nação do norte um cientista que passou os últimos dez anos pesquisando a cura da AIDS reunia a imprensa e comunicava orgulhoso que finalmente tinha encontrado a formula da vacina e, como que pedindo ajuda aos jornalistas, fazia questão de repetir: “Ter a fórmula não é suficiente, é preciso que o governo libere a importação da matéria-prima para o antídoto. Com ela poderíamos salvar um milhão de vidas. Mas é preciso agir depressa. Precisamos vencer esta guerra!”

Mas o presidente naquela manhã estava reunido com o Secretário de Defesa tratando de um delicado tema: o conflito em que se envolvera com um rico país do oriente e para o qual as alternativas diplomáticas estavam cada vez mais escassas. O Secretário apresentou um plano de ataque ao Presidente, rabiscou alguns cálculos no canto do mapa e informou: “Se usássemos todo nosso potencial de guerra espalhado no golfo, contando com ajuda de nossos aliados em ataques aéreo, marítimo e terrestre simultâneos, poderíamos alcançar a baixa de um milhão de combatentes entre civis e militares.” E arrematou aconselhando: “Mas precisamos agir depressa. Precisamos vencer esta guerra!”

Angelo Humberto Anccilotto (Nov/1990)

(Esta crônica fará parte de qualquer coletânea que eu vier a fazer. Não porque seja boa, mas porque foi a minha primeira que a Folha de Guaraçai publicou, em 1990. Enviei o texto para o Sr. José Hamilton, que acatou e me escreveu uma carta que terminava dizendo assim: “Vê se consegue escrever outras.”  De lá para cá não tenho feito outra coisa a não ser tentar escrever outras.)