A ESTRANHA FELICIDADE DO NÃO

Em janeiro, quando as lojas entraram em liquidação pela ressaca do Natal, comprei um relógio na Rua Barão de Paranapiacaba, aqui em São Paulo. Um relógio da Rua Barão de Paranapiacaba não chega a ser uma jóia, é apenas um objeto de utilidade que ajuda a controlar a agenda e não desperta a cobiça dos assaltantes. Se bem que, com a concorrência predatória entre os ladrões neste país, qualquer coisa que valha dez reais se torna alvo dos bandidos. Miserável decadência humana!

Mas não gostei da pulseira do relógio. A vendedora então me aconselhou a ir a uma loja de pulseiras naquela mesma rua e escolher uma que fosse do meu gosto. Chegando à loja, pedi a pulseira e mostrei o relógio. A vendedora de pulseiras disse que para aquele tipo de relógio ela não tinha nenhuma que servia. A gente entende que nem toda mercadoria possa ser encontrada na primeira loja que entramos, os comerciantes não são obrigados a manter em estoque uma gama interminável de produtos à espera de um mísero comprador. Mas o que não consigo entender foi a satisfação com que a moça disse que não tinha. Que me perdoem as senhoras mais pudicas que perdem seu precioso tempo lendo minhas crônicas, mas a moça das pulseiras quase teve um orgasmo de tanta satisfação ao me informar que não trabalhava com aquele tipo de mercadoria.  

Depois disso passei a prestar atenção nos vendedores e em toda cadeia de profissionais que presta serviço de atendimento e que de alguma forma trabalha para resolver nossos problemas. Há sempre a mesma manifestação de alegria, quando essa gente não tem o produto que procuramos, quando não pode fornecer o documento que precisamos, quando não há nada que possa ser feito para resolver nossa necessidade. Há, em todas as circunstâncias da vida, muitos nãos sendo comemorados. Com a felicidade suprema estampada no rosto, nos comunicam que o Plano de Saúde não cobre o exame a que vamos nos submeter, que não há vaga para a consulta médica naquele dia, naquela semana ou naquele mês, que o Departamento Público, seja ele qual for, não pode emitir o documento que precisamos. 

 Intrigado com esse acesso de prazer despertado pela situação negativa, conversei com um amigo entendido em comportamento humano. Ele me explicou: O problema é cultural. A glória maior do homem na Terra é dizer não. Foi assim no principio do mundo: Adão disse não às ordens de Deus. Foi assim também no Brasil. Primeiro foi preciso dizer não a Portugal, depois, dizer não à Monarquia, depois dizer não à Ditadura e agora é preciso dizer não às portas que se abrem para o Comunismo. Você conhece alguma liderança política que venha ao povo e diga: É preciso dizer sim ao regime? Não, meu caro, aos olhos do mundo não há virtude nenhuma no sim. O que vale é romper o status quo, derrubar o atual sistema de coisas, discordar, não fazer, não obedecer. O NÃO é a autoafirmação do homem. Aquele que diz sim vive à sombra, é mero coadjuvante da vontade alheia. O que diz não se realça e se compraz na negação.

 Meu amigo tem lá suas razões, mas eu não pretendia chegar a tão refinado teorema social, apenas queria entender por que uma vendedora sentiria tanto prazer em comunicar a um cliente que não dispõe da mercadoria que ele procura.  O não, quanto mais absoluto, mais triste deveria ser. O não é a inexistência, o vazio, o nihilismo. Deveria ser dito com pesar, traduzindo toda queixa de uma venda não realizada, de um serviço não prestado e de uma comissão não recebida, enfim, não se pode dizer não como se tudo estivesse acontecendo, porque diante do não nada acontece. Mas acho que a moça das pulseiras não pensou em nada disso. Contrariamente, manifestou extremo prazer em não contribuir para o meu humilde desejo de dar ao relógio novo uma pulseira  mais elegante. O jeito foi apelar para a Galeria Pajé.

Angelo Humberto Anccilotto (Mai/2013)