BIFE A CAVALO

Onze e meia da manhã em Guaraçaí é hora que dá fome. Aconteceu de eu subir pela rua Benedito B. Louzada e depois do hospital “quebrar” a esquerda. E por não ter aonde ir, comecei a olhar as casas novas que construíram na cidade no lugar de terrenos vazios ou de outras casinhas velhas que conhecemos há trinta ou quarenta anos atrás.

Não sei se acontecesse com todo mundo, mas quando ando pelas ruas de Guaracaí, depois de admirar as casas novas que se constroem ali, eu as desmancho para repor no lugar as casas antigas e em pouco tempo reconstruo na memória uma cidade velha, mais parecida com a da minha infância.  Parado na calçada diante de uma dessas casas modernas, de imediato me pus a demoli-la para reconstruir no lugar a casa antiga que conheci. Replantei a mangueira que cortaram, ergui a velha parede amarela e desbotada e recoloquei a janela de madeira escurecida pelo tempo. Joguei no entulho o projeto sofisticado da casa atual, desfiz a pintura aveludada e retirei a grade ferro que existe agora.  Não conheço a  família atual que mora ali e por isso me veio o impulso  de bater palmas no portãozinho de madeira e chamar pelos antigos moradores.  Só não o fiz porque o portãozinho de madeira, no século XXI, deu lugar a um portão de ferro com campainha e interfone.

E como era hora do almoço e tivesse gente na cozinha preparando a comida, veio da janela o cheiro de bife frigindo na gordura quente. Como numa cena de desenho animado o cheiro veio da janela, passou pela grade e invadiu o meu olfato indo até meu estômago vazio. Um tormento.  Já não era mais a admiração da casa nova nem a lembrança da casa antiga que me prendiam ali, mas o cheiro de bife sendo revirado na frigideira naquele instante.

Vocês podem estranhar a atitude de uma pessoa que se deixa absorver por uma cena tão prosaica como o cheiro da comida que sai da cozinha alheia, mas sou um homem que há mais de trinta anos trabalha em ambientes fechados e quando sai para o almoço, ou se serve num bufê de comida morna e de salada murcha ou aguarda o prato ser servido na mesa, de forma que há muito tempo não sinto o cheiro da comida sendo preparada no fogão o que me tira um pouco do prazer de almoçar.

Fico imaginando que depois que o bife sair da frigideira a mulher da cozinha irá despejar uma cebola cortada em rodelas para refogar no mesmo óleo quente e depois esparramar sobre o bife no prato. Prendo a respiração e fico aguardando a cebola ser despejada, mas em vez disso ouço um tac-tac-tac de ovo sendo quebrado na borda do fogão e em seguida o espargir de óleo que lambuza o fogão e as paredes. Essa dona de casa não se importa em limpar tudo depois, contanto que a comida saia ao seu estilo.

Mesmo não conhecendo as pessoas da casa, tenho vontade de entrar pelo portão, dar a volta pelos fundos, chegar à cozinha e:

- Dona, me dá esse bife?

Sei que seria atrevimento e certamente a dona da casa me escorraçaria de lá.  Então penso em fazer o que seria mais natural: passar no açougue, comprar alguns bifes e uma dúzia de ovos, por precaução, e levá-los para casa. Mas quando movimento meus pés para sair dali, dou conta de que o bife do açougue não desperta em meu paladar o mesmo sabor. Também não adiantaria ir a algum restaurante e pedir bife a cavalo para o almoço. Meu desejo era comer aquele bife preparado naquela cozinha, naquele fogão, naquela frigideira, naquele momento. Outro bife mais tarde, noutro lugar ou em outro dia não me interessava.

E quando chego em casa em vez de ir à cozinha procurar comida, vou à garrafa de café e me sirvo uma xícara. Ao me perguntarem se eu não iria almoçar, respondo que estou sem fome. Em pé, na calçada, eu havia comido todo o bife a cavalo que uma senhora desconhecida preparava em sua cozinha. 

Angelo Humberto Anccilotto (Ago/2011)