UM HOMEM NO CAMINHO

Num dia qualquer do ano de 1972, um menino doze anos de idade saía do empório do Funatsu, em Guaraçai, com alguns pacotes na mão e um homem passou pela rua em seu carro sem notá-lo. O menino seguiu seu caminho, percorreu cerca de três quilômetros para chegar em casa, mas com facilidade, diga-se de passagem, pois estava acostumado a esta jornada diária e a jogar bola nos campos da fazenda toda tarde. Ele podia caminhar aquela distância e muito mais.

Quando chegava em casa, cerca de quarenta minutos depois, o homem, que já chegara e deixara o carro na garagem, atravessava o caminho indo na direção do terreiro de café da fazenda. O homem era dono da fazenda e o menino era filho de um empregado. O homem vendo o menino com os pacotes na mãos, dirigiu-se a ele se justificando:

- Você me desculpa, eu não reconheci você lá na cidade, senão eu o teria trazido na perua. Desculpa!

Seu carro era uma perua Kombi, azul, placa PD 9370 – Guaraçai –SP que o homem utilizava para suas muitas viagens da fazenda à cidade, para tratar assuntos de banco ou de mercado e nessas idas e vindas costumava levar ou trazer quem encontrasse no caminho. O menino não tinha o que desculpá-lo, mas impressionou-se com a atenção daquele senhor que se sentia culpado por não ter-lhe oferecido carona, deixando-o caminhar sob o sol e o calor. Na sua pequena capacidade de compreensão, o menino admirou a espontaneidade de um adulto que carregava as preocupações dos negócios da fazenda e, no entanto, despendia seu tempo parado no meio do caminho, a se desculpar com um garoto, como se este não fosse nem filho de um empregado e nem uma criança, mas simplesmente outro ser humano equiparado a ele em razão e em valor. E a atenção do homem entrou no coração do menino como a primeira lição de igualdade entre as criaturas da Terra.

O menino cresceu um pouco mais, fez-se adolescente e depois moço e por sete anos conviveu próximo ao homem, vendo-o todos os dias percorrer a lavoura, conversando com ele às vezes, admirando-o pela sensatez com que conduzia os assuntos, além da cultura e da humildade que sempre demonstrava. Via-o constantemente com os olhos pregados nos jornais do dia acompanhando os acontecimentos do mundo, e principalmente os de sua terra distante, pelo São Paulo Shimbun. De estatura elevada, com cerca de 1,90m de altura, diferenciava-se do padrão nipônico pelo porte físico, mas mantinha o sotaque característico dos imigrantes que aprendem outra língua.

O menino mudou-se para longe, em 1978, e só pode acompanhar à distância os acontecimentos e, no atropelo da vida moderna, privou-se de notícias mais próximas, sabendo apenas de fatos vagos que diziam respeito à vida do homem.

Num dia qualquer do ano de 2007 o menino (agora perto dos 50 anos) estava de passagem em Guaraçai, sentado a uma mesa do bar do Fujishima, conversando com um ilustre colega e o homem passou por eles. O colega, bem relacionado na cidade, não deixou por menos: Vamos falar com ele, vamos ver se ele ainda te reconhece.

O homem, já no alto de seus noventa e poucos anos, a princípio estranhou os cabelos brancos que o menino adquirira prematuramente mas reconheceu-o e com alegria o convidou para que fosse visitá-lo na fazenda no dia seguinte. O menino foi. Conversaram algumas coisas, o homem já não era falante como antes, mas fez comentários sobre um incidente diplomático entre a Coréia do Norte e o Japão, demonstrando que ainda continuava atento aos  passos que o mundo dava. Quando os assuntos escasseavam ambos se entreolhavam sem ter o que falar e o menino o olhava como se enviasse pelo olhar uma mensagem de gratidão que o homem assimilava e retribuía com um sorriso, estabelecendo na sala um entendimento silencioso, acima dos códigos convencionais de comunicação. Despediram-se na saída, o menino voltou para São Paulo e não mais o viu, mas continuava se lembrando dele com profundo respeito.

Para encurtar a conversa, o menino da história é o mesmo que escreve estas linhas e o homem, por quem ele conversou essa admiração era Hiromi Nishimura, que perd....

Desculpem, quase fui traído pela inércia do pensamento. Ia escrever que o perdemos recentemente, em fevereiro passado, mas seria leviandade da minha parte completar a frase.  Não se perde alguém no mundo quando se ganha dele uma grande lição de vida.

Angelo Humberto Anccilotto (Mai/2009)