O GATO E A ASSEMBLEIA

A imagem do gato não me saía da cabeça. Era um gato preto de peito branco, com olhos de gato, isto é, meio esverdeados. Alguma coisa não prosaicamente combinada, mas que formava um desenho acima da sensibilidade dos artistas. Em resumo, era um quadro vivo insinuado na paisagem da cidade, ás seis e meia da manhã. Resumindo mais ainda, era um gato parado na calçada na frente do portão da Assembleia Legislativa de São Paulo, hoje de manhã, quando o sol ainda nem havia nascido.   

Eu fazia meu cooper de todo dia e passando por aquela calçada para depois entrar no Ibirapuera, quase atropelo o pobre animal que não se assustou e não se moveu um centímetro sequer para eu passar. Parado estava, parado permaneceu. Sentado no chão, com o corpo ereto e apoiado nas duas patas dianteiras, olhava fixamente para a Assembleia esperando como esperaria um jovem diante da janela de sua amada, sabendo que todo dia ela se abre naquele horário. Haveria alguma gata passeando entre as vidraças do prédio? Gato desavisado! Os romances entre felinos acontecem á noite; jamais vi flerte da espécie na luz do dia, no entanto, o gato permanecia à espreita como alguém que chegara atrasado para o encontro, mas ainda nutria certa esperança de namoro.

Uma moça passou por lá naquele momento e encantou-se com ele. Aproximou-se com cautela temendo uma reação selvagem, pé ante pé, chegou bem perto, esticou o braço para fazer-lhe um afago. Diminuo meu ritmo de corrida e passo a observar a cena. Tanto quanto a moça, também estou curioso para saber a reação do gato. O animal, de certa forma nos surpreendendo, deixa-se acariciar pelos dedos suaves da moça sobre seu pelo. Ela se empolga e fala alguma coisa no idioma dos gatos. Eu Não entendo. Ela afaga sua cabeça e vai embora olhando de vez em quando pra trás.

Sigo minha corrida e também não consigo controlar o ímpeto de olhar para trás. Mesmo correndo o risco de tropeçar em alguma pedra da calçada. Outras pessoas passam por lá, algumas indiferentes, afinal é só um gato, outras, mais comprazíveis, diminuem o passo, estalam os dedos como se quisessem cumprimentá-lo. Entro no parque, perco a visão da cena. Não verei de novo este gato. Nem ele, nem outro gato qualquer naquele lugar. Verei outros gatos em outros lugares. Aquele preto de peito branco na frente do portão da Assembleia, jamais.

Vou em frente, pensando no que aquele gato estaria fazendo ali. Lembro que é sexta-feira, e ele era quase todo preto. Sinto uma pontada na virilha, mas mudo meus pensamentos para não me deixar sugestionar. Nunca fui supersticioso, isso dá azar. Cerca de quarenta minutos e sete quilômetros depois estou passando de volta na mesma calçada e não é que o gato ainda estava lá? Intrigo-me com isso. Penso em escorraçá-lo, fazê-lo sair do caminho. Ali não é lugar para um gato ficar. Mas esse sentimento de verdugo não sobrevive ao olhar manso do bicho, que se mantem inocentemente imóvel, alheio à correria de tanta gente. Gato compenetrado, empenhado na missão como quem recebera um ordem de permanecer em vigília, sondando atos e fatos que se desenvolvessem por ali,  e depois prestar relatório ao seu chefe. Mas pode ser também um gato obstinado que por vontade própria cumpre com zelo a tarefa que se impôs de vigiar o portão da Assembleia e dali não arreda pé.

Nada a fazer com ele ou por ele. Melhor deixá-lo em seu momento de solidão contemplativa, refletindo sobre as circunstâncias da vida de bicho e de gente. Reflexão que não leva a nada mas cria uma janela para o acesso imaginário de outras formas de viver e outros possíveis mundos. Agora sou eu que por meio do gato ponho-me a analisar os rumos do universo em plena sexta-feira de manhã. Aperto o passo e concentro-me no caminho cheio de raízes de árvores que emergem do cimento da calçada.

Chego em casa com sede, com fome e com necessidade de um banho. Sob a ducha morna que lava meu suor e meu cansaço me volta a imagem do gato sentado na calçada. Disfarço e começo a cantar uma canção própria para os chuveiros: Tornei-me um ébrio e na bebida busco esquecer... Mas como as grandes descobertas da humanidade ocorrem durante o banho, tenho o meu momento de Arquimedes e lanço meu grito eureka!   Havia enfim descoberto o que aquele gato fazia ali. Nos tempos atuais, existe melhor lugar para um gato caçar rato do que no portão de uma Assembleia de Deputados?

Angelo Humberto Anccilotto (Jun/2007)