A MEU PAI, SILENCIOSAMENTE

Seis horas da tarde. No inverno já era quase noite completa e no verão ainda fulgiam raios dourados entre os eucaliptos em frente de casa. Era a hora que ele chegava. Vinha com a roupa suja e um saco nas costas, o rosto coberto de poeira. Passava por nós, jogando bola na areia e dizia: “Vamos para dentro!”

Seis horas da manhã. No inverno ainda estava escuro e no verão a enorme bola de fogo despertava furiosa no horizonte. Ele tirava o leite no curral, bebia uma xícara de café com pão, pegava a moringa d’água  e saía para a roça. A gente demorava mais um tempo para terminar o café e comia mais uma fatia de pão e aquele pão de farinha e fermento feito em casa era o que nós interpretávamos como o pão de cada dia. E ele saía tão cedo e voltava quase de noite justamente para ganhar aquele pão que tinha na mesa de manhã.

Aos sábados voltava mais cedo, esquentava a água no fogão, fazia espuma numa bacia pequena e passava no rosto com o pincel diante do espelho e em seguida lançava a lâmina sobre a barba. Tomava banho, punha roupa limpa e ia à cidade comprar alguma coisa ou tratar de algum assunto. Nós, as crianças, acompanhávamos passo a passo aquele ritual. Aos domingos levantava no mesmo horário, fazia os reparos necessários nas benfeitorias do quintal, arrancava o mato da horta, empilhava o milho no paiol, refazia as valetas para as enxurradas da chuva, depois almoçava e ia jogar bocha. Voltava na hora da janta. Minto, voltava antes, na hora do jogo no rádio, às quatro da tarde. Findo o jogo, jantava, escutava mais um pouco de rádio, fumava um cigarro e depois ia dormir.   

A cada bimestre a gente levava o boletim da escola para ele assinar. Ele pegava a caneta e perguntava sempre qual era a linha da assinatura. A gente indicava com o dedo e ele movimentava a caneta no ar, próxima ao papel, fazendo primeiro o ensaio para depois assinar de verdade. Nos divertíamos vendo ele fazer sempre o mesmo gesto e sempre a mesma assinatura. Como conseguia? Quando crescêssemos também assinaríamos nosso nome sempre do mesmo jeito?

Na verdade ele não olhava para as notas ou para o número de faltas. Ele não entendia bem disso, mas havia uma relação de confiança entre ele e os filhos. Ele sabia que não faltávamos na escola e que nossas notas sempre foram suficientes, por isso não perdia tempo fazendo perguntas ou passando conselhos, mas percebíamos que ele ficava feliz com este pequeno gesto de participação na nossa vida escolar, que vinha a ser a sua contribuição para o nosso futuro.

Vejo hoje que os entendidos na relação entre pais e filhos escrevem longos tratados sobre o tema e colocam o diálogo como a salvação da educação. Não quero contestar, quem sou eu? Mas sempre que leio esses artigos me vem na memória a imagem de meu pai tal como a descrevi aqui: um homem de poucas palavras. Os diálogos quando ocorriam eram curtos. Suas respostas para as novas dúvidas e apreensões vinham da enxada e da peneira. O jeito como apertava o ritmo de trabalho debaixo do sol, a preocupação que tinha com as dívidas a vencer, o medo da lavoura não produzir o suficiente, a forma como evitava discussões, muitas vezes cedendo a razão aos outros para não prolongar os conflitos, era assim que ele garantia o nosso tranquilo.

Crescemos assim, ouvindo poucas palavras de sua boca, o que não quer dizer que ele não se comunicava conosco.  No mundo atual dá-se muita importância à comunicação verbal. Meu pai se comunicava de outro jeito, suas mensagens vinham da camisa molhada de suor, da botina furada, dos calos das mãos, dos arranhões nos braços quando voltava do trabalho, da roupa limpa, do sapato escovado e do chapéu novo do fim de semana, do saquinho de doce entre os pacotes de compra. Não creio que seja fácil encontrar no mundo diálogos que ensinem os filhos mais do que meu pai nos ensinou com seu jeito silencioso de viver.            

Angelo Humberto Anccilotto (Ago/2010)