A VIDA MONITORADA

Aproxime-se do limite da plataforma do metrô e ouvirá uma voz ecoando no sistema de som da estação: “somente ultrapasse a faixa amarela quando o trem abrir as portas”. No elevador, não tente nenhuma gracinha com a ascensorista, imaginando-se sozinho com ela na sua viagem vertical. No hall, não banque a criança peralta arrancando a folha da planta e jogando-a no cinzeiro. Nas garagens dos edifícios estacione com correção na vaga demarcada. Qualquer invasão da vaga vizinha e você será chamado pelo interfone para manobrar o carro outra vez.

Nas avenidas, mesmo que seja alta madrugada e apenas esteja em movimento no leito trafegável, ainda que o temor dos assaltos pressione seu pé no acelerador, seja cauteloso nos cruzamentos, porque os radares fotografam sua desobediência aos sinais. A prefeitura que não lhe dá segurança para aguardar o sinal abrir é a mesma que lhe cobrará caro pela infração do trânsito.   

Faça o que fizer no conforto do anonimato e na segurança da invisibilidade e será sempre denunciado por olho eletrônico que segue a nossa vida 24 horas por dia. Cada vez mais a vida do cidadão comum é monitorada. Fitas de vídeos revelam aonde você foi, com quem conversou, a que horas chegou e a que horas saiu. Não há como negar, mentir ficou mais difícil nessa era de big brothers.

Não bastassem as câmeras há ainda os telefones móveis, que vão registrando os sinais das milhares de  torres  espalhadas na cidade e na beira das estradas. Não adianta dizer que estava em Águas de Lindoia se o registro que ficou em seu celular é de uma torre do Guarujá.   

Sabe-se tudo a respeito de nós. E quando o monitoramento falha entra em ação o rastreamento. Empresas sabem para onde os empregados enviam e-mails, quais sites eles acessam, e todos os telefones que deu durante o mês. Se houve conduta irregular, advertência e até justa causa dependendo da gravidade da irregularidade.

Pelo numero de CPF ou CNPJ a Receita Federal rastreia o montante de CPMF que foi pago e pode concluir que a movimentação da corrente sinaliza renda anual bem maior que aquela declarada no Imposto de Renda e aí, malha fina ou inscrição no cadastro dos devedores da União.

Há ainda os grampos nos telefones. Nunca se colocou tanta escuta telefônica como agora. Para felicidade das emissoras de televisão todo dia tem uma conversa telefônica sendo revelada pela Polícia Federal.  Pensa-se estar em conversa com uma pessoa amiga, revelando suas confidencialidades e quando se dá conta está falando para o país inteiro. Se pensa um dia em ser político e se candidatar a algum cargo eletivo, fique mudo desde já porque na hora que sua candidatura começar a incomodar a situação, alguém divulgará um dossiê com tudo o que você disse nos últimos dez anos, até mesmo quando estava conversando sozinho.

E não pense que são só os adultos que sofrem com a bisbilhotice e a intromissão na vida privada. Antes mesmo de nascer o ser humano já começa a ser monitorado no ventre da mãe. Hoje em dia é comum ouvirmos essas expressões: A Juliana vai nascer dia 20 de março. Como pode alguém que não nasceu ainda já ter um nome e até data de aniversário? Um amigo meu esses dias chegou com um álbum de fotografias do filho de seis meses e ia explicando cada foto do álbum: “aqui ele tinha quatro meses, aqui foi no batizado, aqui foi na casa da avó...” e quando chegou na última página ele tinha pregado vários filmes de ultrassom e esclarecia: “neste aqui minha esposa estava de cinco meses, aqui de sete, e neste outra aqui foi duas semanas antes dele nascer”.

Pelo jeito que as coisas andam, só os mortos estão livres das filmagens e das escutas. Mas acho que não por muito tempo. Não duvido que logo começarão a enterrar pessoas com câmeras dentro do caixão na esperança de captarem segredos da vida após a morte. De qualquer forma, se isso acontecer, só poderão colher transformações do corpo; a alma permanecerá insondável. A alma não precisa prestar contas a ninguém depois que o individuo se vai deste mundo. Será o paraíso essa dimensão superior onde ninguém nos pode vigiar?

Angelo Humberto Anccilotto (Dez/2014)