RELÓGIO PARADO

Tenho um relógio na parede da sala do meu apartamento. Ele é bem mais inimigo do que amigo meu. Todas as manhãs, tomando café na cozinha, lanço um olhar enviesado pelo corredor até conseguir enxergá-lo e lá está ele com seu tic tac marcando o compasso da vida, com seus ponteiros velozes, acelerando meus movimentos de passar manteiga no pão, fazendo-me queimar os lábios na borda da xícara quente, não me permitindo um minuto a mais de espera até que o café esfrie.  À noite, às vezes entretido numa leitura ou num filme de televisão, lá está a esfinge circular a me lembrar a todo instante que já é hora de dormir. Sim esse relógio é mais que um inimigo, ele é o controlador dos meus momentos. Bem mais rápido que eu,  não me permite a descontração ampla, geral e irrestrita.

Ontem acordei e ele estava parado. Marcava duas e meia quando a julgar pelo sol que ardia lá fora, já devia passar das sete da manhã. Senti-me uma nova pessoa, uma inexplicável alegria entrou em meu coração. Olhei para ele e sorri com superioridade. A esfinge circular havia fracassado na sua missão de marcar o nosso tempo. Eu a havia vencido. Adormeci sob o seu domínio e despertei livre do seu jugo. Não tinha mais que obedecê-la, ela não podia mais controlar meus movimentos.

Tomei um banho mais demorado do que de costume. Vesti-me com esmero, Fechei pacientemente cada botão da camisa, passei o cinto em volta da cintura conferindo se estava devidamente encaixado em cada passador da calça. Analisei as meias antes de calçá-las, procurando possíveis furos escondidos na ponta dos dedos, fiz o nó da gravata com paciência oriental. Não gostei, desfiz e fiz outro.  

Passei manteiga no pão indo com a faca até a mais recôndita borda, até deixar a fatia uniformemente untada. Bebi o café sem assoprá-lo. Olhei de viés para a sala, lá estava ele, o meu inimigo, agora inofensivo, ainda marcando duas e meia da manhã. Sem relógio para me indicar as horas eu me sentia como se estivesse no seio da Eternidade. Por um instante achei que era minha recompensa pelos anos a fio que este engenho me fez correr atrás das horas que ele indicava. O Juízo Final desta vez fora celebrado, o Criador havia ordenado a parada de todos os relógios do mundo para a salvação dos justos.

Eliminando-se o tempo, quem ousaria me acusar de alguma demora? Não seria mais necessário explicar que o trem atrasara, que o túnel estava congestionado, que um acidente de trânsito impedira a passagem do ônibus. Agora o Universo inteiro deslizava serenamente e a Terra, essa esfera rochosa, era como uma bola a rodar na ponta do indicador do Criador, sem rotação e nem translação, na interminável gravitação do Sempre.

Ainda com a borda da xícara presa nos lábios, ouço Laura remexendo uma gaveta. Ela procura impacientemente alguma coisa. Encontra-a, finalmente, e dá um suspiro, aliviada. Vai até a sala, apanha o relógio da parede, coloca-o na mesa, retira a pilha velha e substitui por uma nova. Gira os ponteiros, realinha o tempo aferindo-o com o seu relógio de pulso e coloca-o de novo no lugar. O meu inimigo estava recuperado. Agora eu era um homem acuado, com medo de sua vingança. Vou á sala, encaro-o de frente e ele friamente me mostra hora e minuto convencionais do mundo. Meu pequeno e rápido paraíso estava desmanchado. A esfinge circular de ferro, vidro e plástico com seus ponteiros sobrepostos indicando quinze para as nove parecia um grão-senhor com os dois braços alinhados mostrando-me a direção da porta.  Ela tem poder sobre mim outra vez, estou irremediavelmente expulso do Jardim do Eden.

Vou ao quarto, apanho o paletó e meus documentos e saio com pressa para ganhar o pão com o suor do meu rosto.

Angelo Humberto Anccilotto (Jan/2006)