OS MÍSSEIS DO FIM DO MUNDO

Antes do advento da Perestróika o mundo era dividido em russos e americanos. Tudo o que de mau acontecia ao Oriente era obra de americano e da mesma forma tudo o que de ruim acontecia ao Ocidente a culpa era dos russos. Por americanos entendam-se os habitantes dos Estados Unidos mais os canadenses, os ingleses, os alemães federais, os japoneses, os franceses, os italianos, os israelenses e outros mais. Por russos entendam-se os soviéticos das 17 repúblicas unidas mais os tchecos, os búlgaros, os romenos, os iugoslavos, os cubanos, os vietnamitas, os coreanos do norte, os chineses, os líbios, os afegãos, e mais alguns menos explícitos.  

Em 1982 tanto russos como americanos declaravam de boca cheia que possuíam armas suficientes para destruir a Terra 24 vezes. Aí, alguns anos depois, o Senhor Gorbachev assumiu o poder na União Soviética e quis fazer dela uma nação moderna e aberta ao mundo. Por seu intermédio os russos e os americanos começaram a conversar e, pasmem, começaram a se entender nas dezenas de reuniões e de conferências dos dois presidentes mais poderosos do mundo.

Com a abertura (perestróika) o mundo pode conhecer a pobreza do povo russo e sem dinheiro os russos pararam de fabricar armas. Do outro lado, os Estados Unidos vivendo um insustentável déficit público reduziram drasticamente os aprestos de guerra.  A isso ainda deve-se somar o resultado das conferências de paz em que ficou decidido que o potencial de cada um dos dois países seria reduzido. Fala-se que o número total de armas foi reduzido em um quinto.

Vamos quantificar os fatos: Se antes cada um deles podia destruir a Terra 24 vezes, agora com a redução de um quinto só podem destruí-la 19 vezes. Confesso que me sinto aliviado. Saber que agonizaremos entre destroços de batalhas 19 vezes em vez de 24 é de certa forma um grande alívio. Saber que o grau de radiação que meu organismo absorverá pela explosão das ogivas de urânio será elevado à potência 19 e não mais à 24 é um grande conforto. Ver nossas casas, nossos campos, nossos animais subirem 19 vezes pelos ares com as explosões é bem mais ameno que vê-los virando cinza por 24 vezes.

Além disso, há outra razão para eu me sentir aliviado. Com a desunião soviética (sem trocadilho) a segunda potência do mundo já não é tão poderosa assim. A grande prioridade russa é o combate á fome. Não há mais tempo para pensar nos teleguiados. A nação precisa ser reconstruída sobre uma nova base econômica e nova base econômica vai priorizar (espero) os investimentos em bens de consumo. Os russos irão fabricar fogão, geladeira, televisores e bens de produção industrial e agrícola. Com os russos preocupados com a barriga não vai sobrar tempo para se preocuparem com seus desafetos do Ocidente. Para haver guerra seria necessário que outra nação ocupasse o lugar deles, mas a gente sabe que as potências não se formam da noite para o dia. Para que outra nação se equipare aos Estados Unidos para enfrentá-los de igual para igual serão necessários bem uns trinta anos. Ao longo desse tempo acredito que a cabeça dos governantes, seja dos atuais ou das pretensas potências estará ocupada com projetos de nutrição e de distribuição de renda. Seria humor macabro afirmar que a fome trouxe relativa paz ao mundo?

Depois desse tempo quando a miséria do estômago não representar mais entrave para o avanço das armas, quando houver dólares suficientes de novo para financiar guerrilhas e esconder superprojetos atômicos  no fundo do mar ou nas estrelas então provavelmente reeditaremos a história nos moldes anteriores à perestroika. Mas acredito na força persuasiva do tempo. Ah, o tempo que a tudo modifica, que apaga da lembrança grandes amores, que faz desaparecer grandes mágoas, que cicatriza feridas que julgávamos incuráveis, pois esse mesmo tempo poderá apagar a chama da prepotência e do ódio entre os povos e transformar Oriente e Ocidente em simples demarcações simbólicas do mapa do planeta.

Eu que tenho hoje 32 anos de idade começo a imaginar que vou morrer sem ver o fim do mundo. Não terei meu corpo esquartejado e arremessado aos ares 19 vezes pela explosão dos mísseis do fim do mundo. Minha pele não sofrerá de chagas cancerígenas hereditárias da radiação nuclear. Chuva ácida, ressaca lunar, treva permanente, esterilidade do solo, acho que não terei longevidade suficiente para ver isso, porque espero que quando os donos do mundo forem lançar mão de novo dos mísseis para o grande duelo hão de encontrá-los enferrujados, emperrados, corroídos definitivamente sob as areias quentes do Arizona ou das estepes geladas da Sibéria.

Angelo Humberto Anccilotto (Jun/1992)