ESQUECERAM DE NÓS

Desculpe, Majestade, mas não vou. O smoking que encomendei numa confecção credenciada da Dior não ficou pronto. O alfaiate me recomendou a legítima casimira inglesa, mais apropriado que isso não poderia existir, mas não deu conta de aprontá-lo.  Tecido de 450 fios. Invertido, ele me garantiu. Na verdade não sei o que isso significa. Seria o caso de usar o terno pelo avesso? Em todo caso não saberei, pois não irei usá-lo nem mesmo pelo lado certo.

E não só pelo somoking, Majestade. Ando meio desprevenido também e não se vai a Londres pela ponte aérea, ainda mais nesta semana em  que a cidade vai receber milhões de turistas. Não disponho de quatro mil e quinhentos euros para cada diária de hotel nas imediações de Buckingham. Um evento dessa grandeza exige dispêndios na mesma proporção, daí a razão de eu não querer competir com os magnatas de sangue azul. E também não entendo por que os hotéis de Londres cobram em euro se a Inglaterra não abandonou a libra esterlina? Melhor eu fazer turismo por aqui mesmo. Quem sabe uma pescaria no Pantanal quando as águas baixarem?

Tem ainda a questão da comida. Os canapés a base de salmão que ireis servir aos convidados não me atraem o paladar. Sou uma pessoa muito simples para essas extravagâncias gastronômicas. Nos casamento a que estou acostumado frequentar servem salgadinhos de queijo, de palmito e de batata. Salmão defumado não entra nos cardápios festivos dos mortais. E tem ainda o champanhe. Todo o ritual para beber um gole de champanhe me deixa constrangido. Não, Majestade, sinceramente eu preferiria uma cerveja, um uísque de vez em quando rodando pela mesa. Escocês de preferência. Champanhe é bebida muito insossa e, sem querer ofender, muito fresca (mesmo quando está quente).

Por fim, Majestade, tem a questão da língua. Meu inglês é muito ruim, e mal consigo me comunicar com os americanos. Com os ingleses é impossível. O que aprendemos aqui no Brasil é o inglês dos Estados Unidos. Aparentemente é a mesma coisa, mas conversar com alguém do Reino Unido é a mesma coisa que conversar com alguém de Portugal ou do Cabo Verde. De vez em quando a gente pede socorro e chama um intérprete.

Como vê, Majestade, tenho vários motivos para não ir ao casamento do seu neto, que por sinal, a essa hora já acabou. Mas nem a roupa, nem a comida, nem mesmo o custo da hospedagem e nem i meu inglês circunstancial me impediriam de comparecer ao evento. São desculpas banais que arranjei. O que realmente me impede de ir é o convite que não recebi. Não estou na lista dos 1.900 convidados que assistirão à cerimônia religiosa e muito mesmo na relação do 600 que irão á festa no Palácio. Estou conformado, afinal não tenho brasão de família e não sou elo de nenhuma dinastia milenar, mas, que eu saiba, o Elton John, o Beckham e Mr. Bean também não são.

Aliás, Majestade, ninguém de Guaraçaí foi convidado, o que foi uma falha grave da diplomacia britânica. Não me pergunte quem me contou, mas fiquei sabendo que Vossa Majestade aprecia o queijo provolone que a Tânia fabrica em nossa cidade, e que no chá das cinco discretamente pede os serviçais que tragam uns cubinhos de queijo com as torradas, que são servidos disfarçadamente aos convidados da Corte.  Ouvi dizer também que ns tards muito quentes de Londres, Vossa Majestade deixa o chá de lado e pede que preparem um suco gelado com polpa de abacaxi importada da América do Sul. Essa poupas que viram suco, Majestade,  muito provavelmente são também de abacaxis colhidos em Guaraçaí. E a senhora não nos enviou nenhum convite como prêmio pela boa alimentação que lhe proporcionamos.

Mas não tem importância. Nesta tarde, mesmo que à distância, brindaremos ao matrimônio do futuro Rei da Inglaterra e beberemos à felicidade de todo o seu Reino. A senhora tem outro neto que deverá se casar um dia. Quem sabe não se lembra de nós da próxima vez?

E pode deixar que a gente leva o queijo e as frutas para o chá.   

Angelo Humberto Anccilotto (Abr/2011)