A CHAVE

A porta de entrada de meu apartamento tinha duas fechaduras. Todos de casa usávamos apenas uma, a de cima, por considerá-la mais segura. Há mais de 10 anos entro e saio usando a mesma chave. Mas, com o tempo a fechadura foi dando sinal de desgaste, ora emperrava, ora a chave não entrava. Há cerca de quinze dias ela emperrou de vez. Foi preciso chamar o chaveiro. Ele veio, desembutiu o mecanismo, limpou, lubrificou, colocou de volta, mas não funcionou. Tentou outras providências, mas concluiu que a engrenagem não girava mais. Desmontou tudo de novo e me entregou: O senhor precisa comprar outra. Como existiam duas fechaduras, e como também é nossa intenção trocar a porta de entrada, guardamos a peça desmontada numa caixa na lavanderia e concluímos que seria razoável usar a outra até que essa pequena reforma fosse feita em casa.

O problema é que a chave permanece no meu chaveiro e anda no meu bolso, e por nada deste mundo me lembro de excluí-la. Chego em casa e mecanicamente a coloco no buraco do espelho e só então percebo que lá dentro não há mais mecanismo para girar. Retrocedo, procuro a outra chave, abro a outra fechadura e entro. Minha mulher zomba: Ainda não se acostumou? Isso é reflexo condicionado, ela diz. Na prática, é como um indivíduo que amputasse uma perna e que de vez em quando ainda sentisse a panturrilha doer. A comparação é exagerada, e nem sei ao certo se isso é mesmo  reflexo condicionado.   

Não quero me estender muito neste assunto, porque eu queria dar outro rumo a essa prosa. Ter uma chave fora de uso é carregar peso desnecessário, é ter nas mãos um instrumento sem perspectiva, que não me permite entrar ou sair. E quantas vezes na vida não nos ocorre a mesma coisa, em sentido figurado, mas com a mesma intensidade traumática? Quantas vezes não temos a chave do problema na mão, mas não nos deixam entrar com a solução? É como se ficássemos com a chave a espera do encaixe de uma engrenagem, mas nossa habilidade se faz inútil diante de uma porta trancada de cuja fechadura extraíram o miolo. Lá dentro está o problema e aqui fora ficou a solução, sem um elo de passagem. Em sentido oposto, quantas vezes não desejamos fugir de certas prisões, brandimos a chave, mas não saímos do lugar, pois não há engenho que faça girar a clave?

E quantas paixões não continuam existindo por aí, mesmo depois que o romance foi dado por encerrado? Quantos ex-namorados, ex-casais e ex-amantes não prosseguem carregando no peito, pendurada num tênue fio de esperança, a inútil chave do amor? Na tentativa de um entrar de novo na vida do outro, percebem que a velha engrenagem já foi removida. Desiludidos, vão bater em outras portas. 

Este pequeno pedaço de metal que ainda carrego sem razão nenhuma logo será abandonado numa gaveta ou num quarto de despejo e um dia quando eu mudar de apartamento, ela estará entre as tralhas descartadas. Por um instante tentarei em vão me lembrar de onde era.

Angelo Humberto Anccilotto (abril/2012)