O SENHOR PRIMEIRO, DOUTOR!

As casas e edifícios, comerciais ou residenciais, possuem garagem. O acesso a essas garagens, principalmente dos edifícios, se dá por uma entrada lateral, onde há um portão automático e na frente deles um rebaixo na calçada.  Dessas garagens saem e entram carros a todo momento. Andar nas calçadas não é segurança, pois os automóveis cruzam nosso caminho quando chegam ou quando saem. Automóvel nos tempos atuais já é membro da família, assim como os gatos e os cachorros. Fulano não está em casa, o carro dele não está lá. É assim que percebemos hoje a ausência de nossos vizinhos.

Aconteceu dias desses eu passar na frente do Hospital Osvaldo Cruz e um médico chegar apressadamente em seu Toyota Corolla prata, reluzindo no sol da manhã, e ao dar comigo na calçada parou e sinalizou para que eu passasse. Parei também e retribui sua gentileza:

- Por favor, doutor, pode seguir!

 Mas ele continuou sinalizando com a mão para eu passar. Voltei a insistir:

- Pode ir, eu espero!

Ficamos assim, alguns segundos, naquela cena patética como dois zagueiros de futebol atabalhoados do tipo “vai que eu vou”, ou “deixa que eu deixo”. O médico por fim se cansou da mímica, acelerou e entrou pelo portão descendo a rampa para o estacionamento dos subsolos.  

Não lhe disse, mas tive vontade de chagar na janela do carro e explicar:

- Doutor, apesar de a lei me conceder a preferência da travessia, neste momento eu, deliberadamente, a transfiro para o senhor.

E continuaria:

- Não sou um assíduo frequentador de hospitais, mas posso muito bem imaginar o que acontece lá dentro. Há centenas de quartos e centenas de leitos e em cada leito há uma pessoa doente e essas pessoas esperam pelo senhor. Deve haver também uma esposa aflita que pernoitou no hospital mas sabe que o marido dormiu bem e já tem sinais evidentes de melhora. Está ansiosa para voltar para casa e tem esperança que o senhor  venha assinar o boletim de alta. Ela consulta as horas no relógio e reclama para a enfermeira: Mas cadê esse médico que não chega? Quando o senhor aparece no corredor, vestido com esse jaleco branco e um estetoscópio descendo sobre o peito, pacientes e familiares enternecidos seguem o senhor com os olhos, enxergando não um homem que optou por uma profissão, mas um anjo enviado de Deus que vem realizar o milagre que eles tanto desejam. Quanto a mim, doutor, não se preocupe com o meu atraso. Sou um simples operário da indústria financeira, que fabrica dívidas e juros para o povo em geral. Cada minuto do meu atraso pode ser um grande beneficio para o país. Um devedor a menos na nação, menos juros na contabilidade nacional. O senhor salva vidas, enche o coração das pessoas de esperança e eu, mesmo sem querer, levo-lhes aborrecimentos e cobranças. Estamos nós dois a caminho do trabalho e o destino exige que um pare para o outro passar. Portanto, doutor, não se constranja, o senhor primeiro.  

Angelo Humberto Anccilotto (Mai/2014)