ESTOU DESAPARECENDO

 Qual o número, senhor?

- 8821-25...

Quem me conhece sabe que sou uma pessoa distraída. Meu corpo e meu pensamento dificilmente andam juntos. Mas felizmente o burburinho dos clientes na loja me trouxe à realidade a tempo e então percebi que era muita presunção minha supor que a vendedora estivesse interessada no número do meu telefone. Até porque, ela me chamava de senhor, estabelecendo entre nós uma distância de trinta anos. Eu havia entrado em uma sapataria e o número que ela me perguntava era o número do meu calçado.

- 41.

Ela subiu as escadas e foi até ao mezanino onde ficava o estoque e voltou com quatro caixas. Marrom mais escuro, marrom mais claro, com cadarço, sem cadarço... Coloquei o primeiro par no pé:

- Ficou grande.

- Eu sabia que ia ficar grande, mas não quis dar palpite.

E me olhou com aquela cara de quem diz: Vai me tocar subir esta escada outra vez.

Subiu e voltou com duas caixas contendo dois pares número 40. Sapatos de couro, com palmilha também de couro, muito macios e confortáveis. Confortáveis demais, a ponto de escapar do pé. Meio sem jeito, com o sapato na mão em vez do pé, apelei para a tolerância  da vendedora:

- Será que teria um deste número 39?

Outro fuzilamento da moça com olhos em faíscas, mas provavelmente ela pensou na comissão da venda, subiu pacientemente a escada e desceu com um 39.

Experimentei e deu certo. Ela não deixou por menos.

- Esta vendo, o senhor calça 39 e não 41.

Esta sentença da moça me fez estremecer por dentro. Lembrei que até há uns seis anos,  sempre que tinha que informar a minha altura a alguém eu respondia: 1,74m. Está assim no meu antigo certificado de reservista emitido quando eu tinha 18 anos. Sempre me pautei por ele para responder com convicção que eu media um metro e setenta e quatro de altura, até que precisando ir a um ortopedista por problemas de coluna, ele começou o meu exame mapeando meus ossos e a primeira coisa que fez foi tirar minhas medidas. E anoutou: altura: 1,71m. Olhei de relance a anotação no prontuário e pensei: Ele mediu errado, minha altura é 1,74m. Questionei, ele mediu de novo: 1,71m. Depois de tantos anos me considerando um homem com estatura de 1,74m, de repente me vejo reduzido a 1,71m. E agora saio da loja de calçados levando um sapato 39, quando a vida inteira calcei 41

Nunca fui grande e voltei para casa ainda menor.  Eu era o próprio Estados Unidos sendo rebaixado na classe de risco. Busquei explicações lógicas, como que provavelmente tivessem tirado a minha altura errada ou trocado os números na hora de anotar no formulário no dia em que fui me alistar, e como nunca mais medi a mim mesmo, passei quase trinta anos informando a altura errada. Quanto aos sapatos, com essa estória de globalização em que os produtos seguem uma fôrma de padrão internacional, sem contar que muita coisa é feita na China sem padrão nenhum, certamente o 39 que calço agora tem o mesmo tamanho do 41 que calcei até há poucos dias.

Penso essas coisas e me sinto aliviado. Mas me ocorre também que posso estar encolhendo, sumindo devagar, desaparecendo de pouquinho em pouquinho, até que: cadê eu?  Só não fico mais preocupado porque no tempo em que eu calçava 41 e media 1,74m, eu também usava calça número 42. Agora, quando vou a uma loja de roupas, depois de apontar o modelo escolhido para o vendedor, ele examina o meu perfil e pergunta (mais afirmando do que interrogando):

- É 46, né?

Dou um sorriso amarelo e concordo a contragosto:

- É sim.

Tudo na vida tem suas compensações, até no corpo humano. Perde-se de um lado, ganha-se do outro. Acho que o que desapareceu da cabeça e dos pés foi parar no abdômen.       

Angelo Humberto Anccilotto (Nov/2014)