A LISTA DA FELICIDADE

Li recentemente numa revista um artigo que tinha a intenção de nos orientar para os momentos em que estamos angustiados, apreensivos, com a sensação de que algo vai dar errado, ocasião em que nosso organismo recebe uma carga elevada de adrenalina que agita a corrente sanguínea. Dizia a revista que nesses momentos devemos desviar nossos pensamentos para as coisas boas que gostamos de fazer, imaginando momentos que nos trazem prazer e felicidade. A receita é velha e conhecida do público em geral e o artigo seria óbvio demais se não fosse pelo fato de não definir o que seriam essas boas coisas da vida. Ele dava a entender  que os momentos que nos proporcionam prazer variam de individuo para individuo, e que, portanto, cada um deve elaborar a sua própria lista da felicidade para pensar nas horas de tensão e angústia.

Eu, por mim, diria que tenho, sim, certos momentos que só de imaginar me transmitem muito prazer. Por exemplo, gosto de pensar em melancia. Não falo de comprar uma melancia na feira ou na quitanda e levá-la para casa, deixá-la meia hora no freezer e depois cortá-la na mesa em fatias semicirculares e padronizadas. Falo de uma melancia colhida diretamente na roça, mas para mim, que vivo na cidade, este momento me ocorre da seguinte forma: Em certo dia eu andaria pelo interior visitando algumas fazendas e  de repente me deixo ficar junto à cerca observando a plantação de uma pequena propriedade, e aparece o dono do sítio, um homem modesto, que me vendo ali à toa, vem me cumprimentar e puxa conversa comigo. Faço alguns elogios à sua lavoura e ele fala que se tivesse chovido no tempo certo estaria melhor e me oferece uma melancia colhida alí na hora. Eu agradeço e tenho vontade de partí-la no mesmo instante, mas para preservar a boa educação me despeço do homem e vou andando até encontrar uma boa sombra onde me sento ao tronco da árvore atirando-a no chão até rachar, arrancando em seguida o seu miolo vermelho com a mão. Assim é que se é feliz chupando melancia.

Outro momento de raro prazer seria chegar em casa e encontrar uma panela de mandioca cozida. Ir à dispensa e buscar uma garrafa de melado de cana (mesmo não tendo dispensa em casa não custa nada imaginar a cena). Não seria uma garrafa de melado comprada na zona cerealista da cidade, que vem com prazo de validade no rótulo, informações sobre o teor calórico e a composição química registrada no SIF. Seria um melado produzido em casa mesmo, da cana que foi colhida e passada na moenda e depois o caldo ficou fervendo por horas no tacho até engrossar. Depois de frio, foi engarrafado num vidro que antes fora embalagem de remédio, e essa garrafa teria como rolha um pedaço de sabugo de milho envolvido numa tira de estopa. Destapar a garrafa, despejar o melado sobre a mandioca ainda quente e depois ir picotando com o garfo e comendo devagar. Eis aqui outra receita de felicidade para ser recordada por quem já a viveu ou para ser projetada por quem ainda deseja vivê-la.

 Mas a minha lista não contém apenas momentos em torno da mesa. Selecionei também certas viagens. Não aquelas viagens cansativas, de longas esperas em rodoviárias ou aeroportos. Uma viagem simples de automóvel, saindo de São Paulo no fim de um feriado, como este último feriado de Páscoa. Em vez de viajar na quinta ou na sexta-feira, sair de casa às seis horas da tarde do domingo e tomar a Castelo Branco rumo ao interior. Ver a estrada entupida de carros do outro lado, congestionada desde Jandira até as marginais Pinheiros e Tietê, e você indo em sentido oposto como se fosse ao encontro de um tesouro que só você soubesse onde esconderam. Esse instante mágico em que você não está no congestionamento lamentando o fim do feriado, vendo dois milhões de automóveis que retornam para disputar a vaga que você deixou na cidade, proporciona a ilusão de que a sua vida não é comum e igual à de toda essa gente que comete sempre o mesmo erro. Andar na estrada vazia quando o mundo inteiro está indo para o outro lado nos deixa mais livres e nos faz sentir um prazer perverso, que não tem preço.

Outro bom momento para a lista é aquele quando chegamos em casa à noite, cansados e com fome, e tiramos os sapatos e as meias sentido o ar correr entre os dedos úmidos. Subitamente sentimos vontade de coçar o calcanhar e se isso acontece com você que morou na roça, talvez se recorde que quando era moleque ia sempre à mangueira do gado ver uma novilha que acabara de parir seu primeiro bezerro e ficava debruçado sobre as tábuas da porteira olhando a pequena cria se equilibrar com dificuldade para a primeira mamada. Formigas e mosquitos ferroavam em volta do seu tornozelo e você coçava o calcanhar com o dedão do outro pé. A lembrança desse gesto simples e despretensioso acrescenta um pouco da felicidade da infância ao prazer de um adulto andar descalço.

E se depois de todos esses instantes imaginados, ainda persistisse em você a ira contra o mundo, então o jeito seria tentar outro truque. Conduzir o pensamento a um sábado a noite, naquele momento em que você está sozinho em casa com a mulher amada e os dois juntos assistem à um filme na tevê, em silêncio, apenas comentando sutilmente certas cenas. Quando o filme acaba e você desliga a televisão para dormir, ela pergunta se você não estava pensando em tomar um licor. E como você achou a ideia interessante, ela vai à cozinha e volta logo depois com duas pequenas taças cheias e lhe entrega uma, deixando a borda da taça dela bater na borda da sua. Ela olha nos seus olhos diz: A nós! Esse brinde improvisado sedimenta os momentos passados e remete às esperanças conjuntas do futuro. Vocês bebem o licor sem dizer nada, a mão de um toca o rosto do outro, levando-os de volta ao sofá. Vocês se beijam e ... E você desperta na madrugada procurando as horas no relógio, apertando os olhos com os dedos para enxergar direito, e descobre que são quatro e pouco da manhã. Você a acorda serenamente e os dois vão juntos para o quarto, sonolentos, tateando as paredes sem acender a luz e se jogam debaixo das cobertas abraçados, felizes como dois anjos recém expulsos do Paraíso.

Angelo Humberto Anccilotto (Abril/2012)