LA BOTELLA

É sábado e faz muito calor, apesar de oficialmente ainda ser inverno no hemisfério sul deste planeta. Contemplo a tarde pela minha janela. Na verdade não posso chamar de contemplação esse ato vago de olhar o céu encoberto por essa nuvem espessa de cor marrom avermelhada que se forma na barra do horizonte. José Goldenberg, físico veterano da USP, explicou outro dia no jornal que a poluição que produzimos na terra sobe para atmosfera e deixa essa camada de sujeira no ar. A luz do sol passa por ela normalmente, sem nenhum prejuízo à claridade do dia, mas acontece que luz produz calor e esse calor deveria voltar a atmosfera, mas  pela mesma crosta que passa a luz, não passa o calor, que fica retido sobre as nossas cabeças, produzindo esse mormaço suspenso no ar, a que chamamos há muito tempo de efeito estufa sem entender direito o que era.

No silêncio de casa, sinto vontade de beber alguma coisa e lembro que há algum tempo ganhei uma cachaça mineira, que envasilhei numa garrafa encouraçada e guardei no armário, para beber em alguma ocasião especial. Essa tarde quente, de pouca umidade e de céu enfumaçado não é propriamente a ocasião especial que eu imaginava, mas mesmo assim vou à cozinha e retorno com a garrafa na mão. Antes de abrí-la, fico um instante admirando o trabalho artesanal que revestiu de couro uma garrafa de bojo largo e achatado com as laterais do fundo em forma de elipse e que tem uma alça também de couro que serve para carregar no ombro, e no meio dela, sobre o revestimento, uma plaquinha de metal com letras douradas onde se lê: URUGUAY.

Lembro-me do casal de velhos que me vendeu esta peça. Descíamos numa avenida central de Montevidéu em direção a Plaza Independência, onde um japonês iria me pedir que tirasse uma foto dele ao lado da esposa em frente ao mausoléu de José Artigas. Batida a foto, ele me pergunta se sou alemão. Respondo que sou brasileiro. Ele se espanta; também é brasileiro. E entabula comigo uma conversa ligeira em que prevalecem informações de onde somos e para onde estamos indo. Digo sou de Guaraçaí, mas tenho vivido provisoriamente em São Paulo nos últimos 35 anos; ele diz que é paranaense de Campo Mourão e nos despedimos assim, apertando as mãos.

Mas antes da Plaza Independência havia uma outra praça menor com muitas árvores e boa sombra, onde um professora de pré-escola espalhou  os alunos sobre a grama passando desenhos para eles colorirem numa folha de papel sobre uma prancheta de acrílico. A brisa leve das praças pode ser uma boa alternativa à quentura das salas dos prédios escolares. Laura observa o silêncio e a compenetração das crianças e me diz que se todos os alunos forem daquele jeito, o Uruguai será uma grande potência no futuro.

Ao lado havia uma barraca onde um velho humilde de olhar cansado vendia objetos artesanais. Aproximo e aponto a garrafa: La botella? - ele pergunta. Respondo que sim. Ele  diz que custa 25 dólares, mas que também posso pagar em reais se eu preferir. Vasculho a carteira e encontro vinte e cinco dólares, e digo que vou levar a botella. Vendo que retiro o dinheiro da carteira, ele apanha  a garrafa com cuidado, coloca numa sacolinha e pede que eu entregue o dinheiro à sua senhora. A velhinha recebe o dinheiro e me dá um marcador de livros com uma oração a Nuestra Señora de los Treinta y Três. Pergunto se tenho que pagar, ela diz que não: “es un recuerdo.”  O velho casal sorri e agradece a compra e agora olhando a garrafa, penso que poderia tê-la adquirido por dez dólares. Lembro que um professor de Economia certa vez disse que eu era uma negação para a classe porque perguntado como me comporto diante de um vendedor, respondi que não costumo pechinchar, que tenho a impressão que o preço que me cobram é sempre o preço justo. Ele disse que não é assim que o mercado funciona. E todo comprador tem por obrigação propor um valor para o objeto que vai adquirir.

Saio da janela e volto em seguida com a filipeta contendo a oração. Leio rudimentarmente o texto em espanhol com a impressão de que cometo um ato irregular, invocando a padroeira de um país estrangeiro sem autorização do seu governo, mas compartilho secretamente os benefícios da prece com o povo uruguaio. Olho a garrafa, recordo os 25 dólares que paguei por ela sem questionar o valor, mando o professor de Economia para o inferno, tiro a tampa e despejo a cachaça no pequeno cálice e bebo sem arrependimento à essa imagem mansa de uma praça distante em Montevidéu, onde uma professora desenha com as crianças sentada na grama, à velhinha de mãos trêmulas que me ofereceu esta oração e àquele senhor de semblante cansado e de sorriso honesto que certamente trabalha até altas horas  produzindo pequenos artesanatos. Que Nossa Senhora de los Treinta y Três o ajude a vender muitas botellas.

Angelo Humberto Anccilotto (Set/2012)