GENTE HUMILDE

Tem certos dias que eu penso em minha gente /E sinto assim todo meu peito se apertar,

Porque parece que acontece, de repente /Como um desejo  de eu viver sem me notar... 

(Chico Buarque)

A moça conversava reservadamente com seu pai no ponto de ônibus, um pouco afastada das outras pessoas, que também aguardavam a condução, como se quisesse preservar a intimidade dos assuntos de família. Por mais que procurasse falar comedidamente algumas palavras chegavam aos nossos ouvidos, todos nós ali no meio-fio da calçada olhando impacientemente para além da curva da avenida na esperança de que o ônibus despontasse.

Então a moça insistia:

-  Não tem cabimento, pai, eu sei que o senhor que tá precisando. Aceita!, vai.

  Mas o homem disfarçava e dizia que não tinha necessidade, que ela não se preocupasse com ele, pois ele estava se virando muito bem. Cabisbaixo, talvez para que seus olhos não revelassem a mentira que ia sustentando a duras penas, ele dizia para a filha se preocupar só com ela e com as crianças, que ele não precisava de nada mesmo, que daria um jeito; ia acabar tudo bem, ela iria ver. 

A moça não se conformava:

- Mas o quê que custa, pai? Se eu estou oferecendo é porque eu quero que o senhor fique com ele. Nós temos esse dinheirinho guardado, mas não vamos precisar dele agora. Não é muito, mas quebra um galhão. Por favor, aceita!  Olhava para o velho pai querendo convencê-lo com o olhar doce e a face metade em sorriso e metade em apreensão. O homem, no entanto, não arredava pé de suas convicções.  Teimoso, achava que ele é que  tinha obrigação de ajudar os filhos e não os filhos a ele. Pensava mas não dizia, ensimesmado em seu orgulho de quem superou todas as dificuldades da vida até aquele momento.

Eu sei que não é educado prestar atenção na conversa alheia e mais feio ainda torná-la pública no jornal mas certas palavras, soltas aleatoriamente, nos deixam comovidos. Quando a moça disse que tinha um dinheirinho guardado e queria emprestá-lo ao pai, me veio na cabeça essa canção do Chico Buarque. “... É gente humilde, que vontade de chorar.” A expressão monetária usada no diminutivo a engrandecia, fazendo daquela moça a mais nobre entre nós todos. Esse dinheirinho certamente foi conquistado com muito sacrifício, economizado de pouco em pouco e agora estava ali disponível, sendo oferecido ao velho, por uma causa importante que não soubemos qual era.

O ônibus se aproximava, o homem se apressou em recolher a sacola que tinha posto no chão, se despediu da filha, que mais uma vez ainda tentou querer persuadi-lo sem sucesso. Ele subiu no ônibus com um o rosto satisfeito, disse a filha que ficasse com Deus e foi se acomodar num banco da janela.

 Na calçada, a filha lhe fez um breve aceno com jeito de quem se achava derrotada depois de tantos argumentos jogados fora, incompatíveis com a  teimosia do pai. Quando se virou para ir embora deu com os olhos numa loja de roupas onde na vitrine se anunciava uma liquidação de inverno. No cartaz colado no vidro ofereciam-se casacos de lã de R$ 2.490,00 por R$ 1.990,00.

 Ela balançou a cabeça negativamente reprovando aqueles preços, ajeitou a bolsa no ombro e sumiu na multidão.   

 “...E aí me dá como uma inveja dessa gente /Que vai em frente sem nem ter com quem contar.”

Angelo Humberto Anccilotto (Jul/2011)