JÓIAS QUEIMADAS

Hoje de manhã, num jornal de televisão, numa daquelas chamadas que os apresentadores fazem para o bloco seguinte, o locutor disse: Policia Militar vai dar proteção aos carteiros em Santos.

O intervalo entre um bloco de notícias e outro não dura mais que um minuto e neste minúsculo intervalo de tempo me pus a imaginar porque os carteiros estariam precisando de proteção. Os bandidos agora estão roubando cartas?

Notícias de um filho a uma mãe distante seriam de interesse dos ladroes? Palavras de amor de uma mulher apaixonada, remetidas a um destinatário ingrato seriam de interesse da bandidagem para a reprodução de cópias piratas? Carta de um irmão convidando o outro irmão para o batizado do sobrinho teria grande valor nas mãos de uma quadrilha? Um telegrama convocando um jovem recém formado para o primeiro emprego poderia ser interceptado por um assaltante e vendido no mercado paralelo?

Seriam esses ladrões analfabetos que não conseguem escrever uma única linha e por isso roubam as correspondências alheias para depois despachá-las com outro selo como se fossem próprias? Eu, que por toda vida amei as letras, e que ate até o ignóbil ato de escrever cartas de amor por encomenda de terceiros já cometi, imaginei por um momento que as palavras escritas estariam valendo fortuna e seus entregadores corriam risco de morte, a ponto da Segurança Pública escalar policiais militares para escoltá-los no itinerário das entregas.

Mas acabou o intervalo do jornal da televisão e veio a reportagem completa, e por meio dela descobri o que já era óbvio para muita gente. Com o crescimento do mercado virtual, as compras pela internet se multiplicam a cada mês. Empresas do segmento a que se chama de e.comerce e vendedores ocasionais usam o Correio para despachar as encomendas. Chegando ao destino, os embrulhos vão para a sacola dos carteiros que saem pela cidade procurando o endereço dos compradores. Os ladrões percebem, vão atrás dos carteiros e roubam-lhes a mercadoria. A frequência desse tipo de assalto virou preocupação da Polícia.

Triste para mim foi ouvir que em muitos casos os ladrões levam a sacola dos carteiros e depois fazem uma triagem separando os objetos de valor das correspondências, que na sequência são amontoadas e queimadas para não deixarem pistas.  Pensei por um instante na mãe distante que esperava notícias do filho, na mulher apaixonada cujas palavras jamais serão lidas pelo destinatário ingrato, no tio que não compareceu ao batizado do sobrinho porque não ficou sabendo a data do acontecimento e no jovem que não se apresentou ao Departamento Pessoal para o emprego porque não recebeu o telegrama que estava aguardando. Essas correspondências foram todas incineradas com desprezo pelos ladrões, como meros entulhos descartáveis. 

Que a Polícia proteja os entregadores do Correio, que as mercadorias compradas na internet cheguem às mãos dos verdadeiros donos, mas, sobretudo, que essas humildes palavras de amor e de esperança despachadas dentro de um envelope, como diamantes raros que transitam de um coração a outro dentro da mala do carteiro, sejam salvas e nunca mais sejam queimadas no fogo como bijuterias sem valor.

Angelo Humberto Anccilotto (Nov/2014)