CALA BOCA

- Cala a boca!

- Cala boca já morreu, quem manda na minha boca sou eu!

- Cala a boca já morreu? Quem matou foi eu!

Assim terminavam as pendências entre a molecada, antigamente. Quando a discussão descambava para ofensas, lavava-se a honra mandando o outro calar a boca. Vencia aquele que resistia à peleja até deixar o “adversário” quedo e mudo. As crianças de hoje não mandam ninguém calar a boca. Quando o arranca-rabo começa, aquela que fraqueja corre para debaixo da saia da mãe, da professora, da diretora, da mídia ou da psiquiatria especializada, na busca de um atestado de bullying.

Na sala de aula alunos também não calam a boca. A professora não tem alçada para fazê-los fechar a matraca. Não importam a ocasião e nem o assunto da conversa, o aluno está revestido de direitos contra os berros dos mestres que pedem silêncio na classe.  Pelas novas regras de educação, mandar calar a boca é agressão verbal contra a criança, que infringe os princípios pedagógicos podendo levar o “agressor” à punição.

De igual modo os pais também não mandam os filhos calarem a boca. Sejam criança, adolescente ou jovem, filhos dizem o que bem entendem, dão palpites, resmungam, fazem cobranças, chantagens, chiliques, manhas, fricotes, birra, pirraça e não há no mundo de hoje força progenitora que os chame à razão com um sonoro e ríspido cala a boca!  Ainda que certos pais se inspirem no modo de criação antiga para impor o respeito, o filho tem a seu favor um arsenal de leis apontado contra o imperativo arcaico.

Marido também não manda mais a mulher calar a boca como mandava no início do século passado. Esposa correta era a que não dava palpite nos negócios do homem ou a que se retirava da sala ao primeiro olhar fulminante do provedor do lar. As que insistiam em propor uma alternativa para o rumo econômico da vida a dois, ganhavam o corretivo verbal, por humilhação ou até por zombaria: “Cala a boca que você não entende de negócios!”  Mais para frente, depois da metade do século passado, as resignadas esposas foram gradativamente erguendo a voz e revidando: “Cala boca você, que eu sei muito bem o que estou falando!”  Mas chegamos ao ponto em que os casais não calam mais a boca, pelo contrário, são incentivados a falar o que um acha do outro na terapia caseira a que passamos  chamar de “discutir a relação”.

Na cadeia hierárquica de um emprego, o chefe não pode mandar o subordinado calar a boca.  As relações trabalhistas se revestiram de finas películas sensíveis ao assédio moral. “Cala a boca e trabalha!” como os chefes costumavam dizer aos empregados antigamente, agora é passível de denúncia ao sindicato da categoria, com possibilidade de ação indenizatória contra o patrão, reivindicada na Justiça do Trabalho. 

A imprensa também não cala mais a boca. Investiga, denuncia, informa, analisa, critica, desinforma e traz de roldão retrospectos e perspectivas, verdades e mentiras. Os editoriais deixam o governo em papos de aranha, mas a ABI e a Constituição Federal garantem o sagrado direito da liberdade de expressão. Não há AI-5 e SNI rastreando a vida dos repórteres, nem DOICODI para trancá-los no fundo do cárcere como nos tempos de Vladimir Herzog e Rubens Paiva.  O único ataque do gênero que a imprensa sofreu nos últimos tempos foi a campanha de internautas nas redes sociais denominada “Cala a boca, Galvão!” contra a verborragia entediante do mais famoso locutor de esportes da atualidade. Galvão não se calou, continua nos aborrecendo com seu estilo arrogante de sabe-tudo, e prometeu se aposentar só depois da Copa do Mundo, em 2014.

Os artistas também não calam mais a boca. No cinema, no teatro na música na literatura, na televisão, a linguagem pode ser obscena ou subversiva que não aprecem mais as mordaças da censura para lacrar a boca dos cantores e atores. E, a bem da verdade, nossos artistas andam tão felizes que ninguém mais é de direita ou de esquerda, e muito menos do centro. Desfraldam suas bandeiras no lado que toca o vento.

 Enfim, todo mundo fala o que pensa, e principalmente o que não pensa.

- Cala a boca!

- A boca é minha, calo se eu quiser!

Assim, falamos e falamos, e não há mais lei que nos obrigue a ficar de boca fechada. A não ser aquela lei interior, que nunca foi inserida nos códigos convencionais, pela qual todo homem deve reconhecer o seu momento de fazer silêncio.

Angelo Humberto Anccilotto (Dez/2012)