O ROSTO DE DEUS

Eu ainda era muito pequeno quando ouvia dizer que Deus sabia tudo o que estávamos fazendo. Então, a primeira imagem que fiz de Deus era a de um homem invisível, que andava atrás de mim. E se por acaso eu me virasse de repente para vê-lo de surpresa, Ele se esconderia rapidamente atrás de uma parede ou de uma árvore.  Essa ideia ganhava mais força ainda quando nos diziam que Ele protegia as criancinhas e por alguns anos andei com essa sensação que era seguido por um ser que eu não podia ver.

Depois, quando comecei ir à igreja, via aquelas réplicas dos desenhos de Michelangelo que são pintadas em quase todas as igrejas católicas do mundo e Deus passou a ser um homem velho, barbudo e cabeludo, vestido num manto longo em tom azul, branco e dourado. Foi assim na minha infância e por muitas vezes eu olhava o céu e a sua imagem aparecia nas nuvens. E a Nuvem-Deus era mansa e se formava nas tardes quentes de verão. Entre as nuvens eu O via se deslocando no ar, movido pelo vento até se desfazer.

 Às vezes eu mudava de ideia e enxergava Deus na figura de um pássaro pousado no último ramo de uma mangueira alta e essa imagem me fazia acreditar que Deus era um homem solitário. Apesar de dizerem que as pessoas quando morrem vão para o Céu, eu imaginava que Deus não ficava no meio de toda aquela a gente e sempre O via retirado, à beira de um lago ou no sopé de uma montanha, pensativo, talvez ainda incerto de que sua obra estivesse mesmo acabada.

Quando tinha 15 anos ouvia o Raul Seixas cantar: “Ói, lá vem Deus / Deslizando no céu entre brumas de mil megatons.” Aí passei a procurar Deus nos temporais, nas nuvens pretas que vinham acompanhadas de raios e trovões que riscavam o Céu e estremeciam a Terra. Talvez combinando mais com força da juventude, passei a imaginar um Deus mais guerreiro, furioso, explosivo, que descia pelos ares no meio das tempestades. E por algum tempo Deus foi um espécie de terror em minha alma.

Depois cresci e abandonei essas imagens. Comecei a ver Deus nos mendigos que vinham pedir esmolas nas ruas. Pensava com frequência que Ele se disfarçava em farrapos e andava nas calçadas como Dom Pedro Segundo fizera uma vez durante o seu reinado, para saber o que o povo pensava dele. Mas o tempo passou e no passar do tempo Deus foi perdendo seu rosto. Já não o via mais nas nuvens, nem perambulando pelas ruas, nem pousado nas mangueiras altas, nem mesmo no teto das igrejas.

E hoje, já bem mais adulto e livre de qualquer fantasia, Deus apenas tem o peso de alguma coisa que você carrega por dentro, mas não consegue lhe dar uma imagem. Procurar o rosto de Deus hoje seria o mesmo que converter certas palavras em figuras. Qual imagem representaria a coragem? Qual delas traduziria o perdão? Que desenho simbolizaria a humildade? Que face daríamos a compreensão? Com que forma geométrica desenharíamos a paz? Que arabesco representaria o amor? E a tolerância? E a união? Qual seria a face da justiça?  Qual o a fisionomia de um abraço? Qual o aspecto de uma palavra amiga?

Quem encontrar um semblante para qualquer um desses sentimentos, certamente terá descoberto o rosto de Deus.

  Angelo Humberto Anccilotto (Jun/2012)