OITO TOMATES

Em algum momento da nossa vida escolar, lá no ensino fundamental, aprendemos que dois mais dois dá quatro. Depois, no ensino médio, nos ensinam que a soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa. A gente leva esses ensinamentos para a vida toda, mas entre os dois, confesso que só o primeiro eu tenho usado com frequência. Todo dia temos que por em prática esse dois mais dois e outras variações das quatro operações matemáticas.  A fórmula para o cálculo dos lados do triângulo fica na reserva, pronta para ser usada a qualquer momento, mas nunca é.

Além disso, há tantas fórmulas complexas que aprendemos na vida escolar, achamos interessantes, aplicamos nas provas e elas garantem nossos diplomas acadêmicos, mas nunca usamos na vida prática. Porque talvez a complexidade da vida seja uma complexidade diferente daquela das fórmulas matemáticas ou geométricas. Nunca me vi numa enrascada onde fosse necessário aplicar os ensinamentos de Pitágoras, e digamos também que nunca precisei resolver a equação da reta para traçar a minha vida.  

A lição que fica de todas essas lições é que, na maioria das vezes, a gente resolve a vida com fórmulas simples, e por isso é preciso aprender bem as lições simples da vida. Uma forma de aprender fórmulas simples é observar o que os mais velhos fazem ou dizem. Deles podem nos vir muitas lições gratuitas, bastante usadas enquanto vivermos. Dentre as lições gratuitas e simples que aprendi, tem uma que sempre lembro, e mais ainda agora depois que nosso velho amigo Funatsu nos deixou.

Faz tempo, muito tempo isso, eu era um rapaz de dezesseis anos, se tanto, e estava uma noite em sua quitanda, apenas matando o tempo, a espera do filme começar talvez, não me lembro direito.  Encostou uma caminhonete na calçada em frente, desceu um homem e veio lhe oferecer tomates. Funatsu pediu para ver o produto. O homem trouxe uma caixa e colocou no chão dentro do empório. A caixa era de madeira, estava fechada em cima com duas ripas que deixavam uma brecha no meio. A única visão possível dos tomates era por aquela fresta. Olhei também os tomates por aquela abertura e a visão era magnifica. Tomates grandes, boa cor, chegavam a impressionar.

Funatsu contou os tomates que via naquela fenda entre as duas ripas: Um, dois, três... oito. Havia oito tomates no topo da caixa que podiam ser contados por aquela abertura. O vendedor fazia sua parte elogiando seu produto com expressões como: “veja como são grandes, como são bonitos”. Funatsu pensava em silêncio. Quando se ergueu e encarou o homem de frente, disse-lhe: “Não quero. Seus tomates são muito pequenos”. O homem espantou-se: “Como pequenos, se o senhor mesmo viu como são?”

Confesso que eu também estranhei aquela afirmação. Eu tinha visto os tomates e sabia que eram grandes. Funatsu então explicou: Se todos os tomates da caixa fossem do tamanho destes que estão na boca, não caberiam oito no topo da caixa. Se tem oito aqui em cima é porque os de baixo são bem menorzinhos. Após algumas justificativas vagas, o homem apanhou a caixa do chão, voltou a colocá-la na caminhonete e foi embora.  Funatsu virou-se para mim e comentou: “Pensa que me engana!”

Não sei quem era aquele senhor que vendia os tomates, talvez fosse de outra cidade. Também não sei a fórmula algébrica que Funatsu usou naquele momento para calcular tão rapidamente o volume da caixa e concluir quantos tomates seria possível caber lá dentro. Na verdade não houve cálculo algum, a conclusão viera tão somente da experiência de quem já teria aberto mais de mil caixas de tomates até aquele dia. Hoje não sou comerciante de tomates nem de qualquer outro produto hortifrúti e já deveria ter esquecido essa história. Se não a esqueci é porque aprendi ali a lição que é preciso estar atento porque há truques em tudo que vemos ou negociamos. Saber desde cedo que no mundo as coisas não são como parecem e que há sempre alguém querendo nos passar a perna é um ensinamento dos mais úteis que podemos receber. Gratuitamente.

Angelo Humberto Anccilotto (Jul/2012)