UM VIZINHO, OUTRO VIZINHO

Meu atual endereço vai completar treze anos e já é o mais longo período em que morei no mesmo lugar. E quando digo no mesmo lugar, não me refiro à mesma cidade ou ao mesmo bairro. Quero dizer na mesma casa, incluindo o ato de entrar e sair pela mesma porta, de abrir o mesmo portão, de tropeçar no mesmo assoalho despregado. Ocorre-me, então, ficar pensando nas outras casas onde morei e uma delas, a primeira de todas, me desperta especial atenção. Lembro-me de cada árvore do quintal, de cada pé de flor que minha mãe plantava em volta dela, e de um quadro da santa ceia, em bronze, pregado na parede da sala. Mas o pensamento voa entre essas lembranças e segue à minha frente. Estou agora pensando na casa que ficava adiante, a uns oitenta metros de distância, onde morava nosso vizinho mais próximo.

Estávamos habituados a entrar na casa dele pela porta da cozinha e a sair pela porta da sala e a correr entre os cômodos, e quando a dona da casa pedia que parássemos com as brincadeiras, quedávamos à espera de uma repreensão severa, mas ela gentilmente só queria que sentássemos para comer um pedaço de pão ou de bolo com café. Foi assim durante muitos anos; a casa do vizinho era uma extensão da nossa casa e sua família um prolongamento da nossa, que em certos momentos uma coisa se misturava com a outra.

Um dia, quando eu voltava da escola, havia um caminhão parado na frente da casa do vizinho e homens carregando mesas, cadeiras, camas e colchões para cima do caminhão, que depois partiu carregando aquilo tudo. Nós sabíamos que o vizinho ia se mudar, há muito se falava disso lá em casa, mas era uma perspectiva vaga, que a gente não acreditava direito ou achava que estava muito longe de acontecer.

Alguns dias depois, quando eu também voltava da escola, havia outro caminhão parado na frente da porta e homens descarregando outras mesas, outras cadeiras, outras camas e outros colchões. Uma nova família estava chegando para ocupar a casa vazia, para tomar posse das laranjeiras, das bananeiras, do abacateiro e do pé de romã. Tudo que foi plantado e cuidado pelo antigo morador, agora estava sob nova direção. Passada a quarentena da desintegração de convívio, na expectativa de reconquistar o ambiente temporariamente abandonado, algumas semanas depois estávamos a correr pelo quintal do vizinho. E quando contornamos as paredes para entrar pelos fundos, a porta da cozinha estava fechada. Tentamos pela sala, a porta também estava fechada. Uma mulher saiu na janela e gritou que não era para correr no quintal, ao que (seria a senha?), ficamos esperando o convite para o café com pedaço de bolo.

Mas não teve bolo, nem teve pão com café; a mulher não era exímia em prendas do lar, ou, se era, não fazia questão de dividir seus confeitos com estranhos. Na semana seguinte quando levamos a bola para jogar no terreiro, o menino do meio disse que não gostava de brincar de bola. O menorzinho não sabia driblar direito e o mais velho, já um cavalão, disputava as jogadas com força bruta e chutava nossas canelas. Quando mesmo assim o jogo ia esquentar, o pai gritou de dentro para fora que ali não era lugar de jogar bola, e que os meninos tinham mais o que fazer. O que estávamos pensando? Que a vida era só vadiagem?

Com a bola debaixo do braço, voltei para casa. Um carrapicho espetou a sola do pé, então foi preciso sentar num tronco seco de árvore à beira do caminho, colocar o pé ferido em cima do joelho da outra perna e removê-lo. Na aflição do momento, pensei primeiro, com carinho, no vizinho antigo e depois, com certa raiva, no vizinho novo. Por um instante quis que a casa tivesse sido demolida enquanto estava vazia, para ninguém mais morar nela. Descobri, sem querer, que mudança era alguma coisa mais extensa e mais profunda do que juntar os pertences e transportá-los para outra casa. Havia nessa relocação de coisas e gente uma triste, indesejada separação de vidas.

O espinho de carrapicho na sola do pé doía bem menos que essa cruel constatação.

Ângelo Humberto Anccilotto (mai/2013)