FÍGADO DE GANSO

Já escrevi sobre muitos pássaros, sabiá, bem-te-vi, pomba, garça, urubu, tiziu, pardal, marreco, todos esses já apareceram em algum texto, mas nunca pensei em escrever sobre gansos, principalmente numa situação assim, quando a crônica se torna praticamente um manifesto de defesa, como vocês verão mais adiante.

Não tenho admiração por gansos. Acho uma ave sem graça, barulhenta, sem a beleza altiva necessária para ornamentar um lago como seus primos cisnes e sem a humildade dos patos e com uma aerodinâmica pouco favorável que quando se movimentam parece que vão cair de bico no chão. Essa ave parece que foi feita para voar, porque no ar sim ela é elegante, veloz, imponente. Na terra é só um bicho desengonçado que anda pelo quintal se balançando e grunhe por qualquer motivo.

Mas isso não me impede que eu sinta por essas aves certa compaixão e talvez vocês também sintam quando souberem a atrocidade que se faz com elas. Todos sabem que paté de fígado de ganso é uma iguaria muito apreciada em qualquer coquetel. E uma torrada com patê  em cima, antes do prato principal é coisa que não se despreza em nenhum jantar. Pois bem, parece uma coisa à toa, a gente vê a pasta de fígado numa bandeja qualquer, sabe que foi extraída de um órgão interno do ganso, mas fica nisso. Não sentimos nenhum remorso em apreciá-la com todo o desejo do mundo. A não ser que você conheça o processo de fabricação dessa pasta.

Talvez você até saiba, pois na história da civilização humana o patê de fígado de ganso é comido desde os tempos do antigo Egito; eu é que sou um retardatário da cultura universal e só descobri isso agora. O bom patê, tanto os que os faraós apreciavam em seus banquetes como os que são servidos hoje nos melhores restaurantes do Brasil e da Europa, principalmente da França, é feito com o fígado mais gordo dos gansos. Digo fígado mais gordo dos gansos e não fígado dos gansos mais gordos, o que tem uma severa diferença. Os criadores de gansos engordam o fígado da ave. E sabe como eles fazem isso? Nos últimos vinte dias antes do abate eles dão muito milho para ela comer.

Se você pensou num cocho ou num comedouro automático onde as aves ficassem dia e noite comendo até se empanturrar, é porque você tem bom coração e não conhece o grau de sadismo da natureza humana. Em nome da produção de uma boa matéria-prima os criadores de ganso introduzem um tubo de 25 centímetros pelo bico da ave que desce pelo esôfago até encostar no fígado, e por ele injetam o milho num processo pneumático, ou seja, o milho é disparado por uma pistola de ar comprimido por esse tubo até chagar no fígado. O processo é repetido muitas vezes por dia e uma enorme quantidade de milho embebido em manteiga é arremessada no estômago do ganso que, sem tempo para a digestão, acumula o alimento no fígado, o que faz o órgão inchar e crescer até dez vezes o seu tamanho natural. 

Esse fígado gordo, também conhecido como foie gras não serve apenas para fazer patê, mas inclusive para ser servido frito. E custa muito caro. E como a oferta de fígado de ganso não cobre a demanda de pessoas dispostas a pagar pelo requinte de suas refeições, a prática se estende também aos patos. Ao pedir um  foie gras num restaurante você pode receber tanto um fígado de ganso como um de pato, engordados pelo mesmo processo. 

Sabemos que é crescente o envolvimento da humanidade na defesa dos animais e o sistema de engorda de gansos e patos já está abolido em muitos países e tende a se acabar no mundo todo em breve. Sabemos também que o ganso é uma ave um tanto feroz que costuma atacar as pessoas. Em certas fazendas na Europa, gansos são criados para defesa da propriedade como se fossem cachorros treinados.  Considerando esta característica, se um dia você presenciar o ataque de um ganso a uma pessoa, ou até mesmo se for atacado por um, perdoa-o. É possível que seja só um instinto de vingança contra o homem, porque ele sabe que em algum restaurante de luxo, um patife qualquer está sentado degustando um fígado junto com um copo de vinho, de champanhe ou de chope, e que muitos outros de seus irmãos pássaros estão prestes a morrer asfixiados com um tubo no esôfago para satisfazer o desejo excêntrico e brutal do ser humano de se alimentar com as vísceras de outro ser vivente.      

Angelo Humberto Anccilotto  (Jan/2012)