DECADÊNCIA

Tem chovido muito nestes últimos dias. De manhã, cai uma garoa fina como borrifos lentos que vem das nuvens, daqueles que a gente continua andando  e se impregnando de pequenas gotas até nos sentirmos completamente molhados. À tarde, às vezes chove uma chuva regular, daquelas que dá pra se proteger com uma capa ou com um guarda-chuva chinês, e às vezes chove muito forte, formando enxurradas gordas nas sarjetas. Neste último caso, quando se está na rua, o jeito é procurar abrigo no primeiro boteco que encontrar.

Eis-me parado na porta de um bar, perto das oito da noite, esperando uma chuva que eu imaginava durar cinco minutos, e lá se vão mais de quinze. Olho constrangido para o dono do estabelecimento por usufruir das suas instalações sem lhe dar nada em troca. E como a chuva insiste, para aliviar essa sensação de débito com o homem me dirijo ao fundo do bar e peço uma cerveja. Não estamos no verão e não seria adequado beber nada gelado, mas estou apenas querendo saldar minha dívida moral, retribuindo com esse pequeno consumo a hospitalidade que, se ele não me ofereceu, ao menos não me impediu de desfrutá-la.

O homem me traz a cerveja e pergunta se desejo mais alguma coisa. Digo que não, que ele não se preocupe, e ele se afasta cordialmente. De longe me observa, prestativo, pronto para entrar em ação ao menor sinal que eu venha a lhe fazer com a mão. Mas bebo minha cerveja calmamente em goles distantes um do outro, observando as pessoas que param na porta, indecisas quanto a ficarem sob a marquise ou seguirem na chuva. Distraio-me com essas cenas, mas no fundo elas apenas disfarçam minha solidão. Sempre achei que um homem bebendo sozinho no fundo de um bar representava o mais triste sinal de decadência. Serei eu este decadente?

É verdade que há muito tempo não faço novos amigos e acaso eu telefonasse agora para os antigos, não creio que viriam debaixo de chuva beber comigo. A perda da capacidade de fazer novos amigos e a habilidade em perder alguns antigos, me fazem sentir que estou em declínio. Preservo certos costumes decadentes e me sinto decaindo com eles. Tenho acordado enfastiado, sem o mesmo entusiasmo para o trabalho. Minha longa vida de operário e de funcionário vai aos poucos ficando sem motivo. Se houvesse um jeito de as empresas medirem a contribuição individual de cada empregado no lucro, certamente um diretor me chamaria à sua sala e diria que minha contribuição marginal nesses últimos tempos é zero. Ele diria que atingi o break-even da ineficiência, e se eu tivesse tendências socialistas iria me sentir feliz por dentro, sabendo que minha produção paga apenas o meu salário sem gerar um centavo excedente para acúmulo de riquezas. Mas vivo entre capitalistas e esse pensamento é perigoso.

Levanto-me e vou até porta do bar olhar o céu na esperança de que a chuva tenha diminuído, mas vejo que ela ainda é torrencial. Um rapaz sai correndo e pisa num buraco encoberto pela água e afunda a perna até acima do tornozelo, resmunga qualquer coisa e sai andando, agora sem pressa. Alguém ao meu lado comenta que a chuva ainda vai demorar a passar. Retorno a minha mesa, a minha cerveja, ao meu silêncio e a minha decadência.

 Angelo Humberto Anccilotto (Jul/2012)