BARRIGA QUENTE

No princípio de tudo era apenas uma folha de parreira a vestir o corpo da mulher. Nunca entendi direito por que, então, a maçã e não a uva se tornou a fruta proibida do Jardim do Éden. Sendo a parreira a árvore mais apropriada para fornecer a indumentária feminina depois que Eva sentiu vergonha da sua nudez, seu fruto também seria o mais indicado para simbolizar o desejo proibido.

Conjecturas a parte, depois da folha de parreira veio a pele de animal, num estágio em que a espécie humana já conseguia abater os bichos para o sustento e para proteção do corpo contra as intempéries da natureza. O fato é que o uso de roupas é considerado no mundo civilizado como parte do bom senso e da ética humana, regido por valores sociais, e considerado indispensável, especialmente em lugares públicos.

Na sequência, os materiais utilizados para a confecção de roupas passaram a ser naturais, como o algodão, a seda e o couro, ou sintéticos, como a poliamida  e o acrílico, por exemplo. A Revolução Industrial, modificou totalmente os meios de fabricação; com a invenção dos teares, uma só máquina tecia o equivalente a produção de 200 homens por dia e toda essa introdução foi apenas para dizer que, com a progressiva escala de produção, a espécie humana se deu ao luxo (literalmente) de usar roupa não apenas para a proteção do corpo mas também para a sua elegância.

Digo que a espécie humana se deu ao luxo, mas esse luxo foi muito mais apreciado pelas mulheres. É por elas que os estilistas movimentam uma estrutura industrial e comercial que rende bilhões de reais para a economia brasileira todo ano. Por causa da mulher o tecido se tornou mais fino, mais confortável, mais colorido, e as peças variam tanto de uma estação para outra. Apesar da moda ser passageira permanecendo muito pouco tempo nas vitrines, há um modelo de roupa feminina que vem se repetindo há quatro ou cinco anos. Chegou e não sai mais da moda. Trata-se das blusas curtas que deixam a barriga de fora. 

Por incrível que possa parecer, nos últimos dias mesmo com a temperatura batendo na casa dos sete graus, via-se pelas ruas, não uma nem duas, mas muitas moças de blusas curtas com uma faixa da barriga exposta. Como o frio era insuportável, sobre a blusa curta vinha uma casaco ou uma jaqueta, mas sem abotoar. As costas ficavam integralmente protegidas, já as barrigas iam colhendo o vento gelado que batia de frente.

O curioso é que essa moda emplacou de tal maneira que mesmo as blusas de lã ficaram curtinhas. Subiram as golas, umas têm até capuz revestidos de pelos sintéticos para proteger a cabeça e o rosto, mas na parte de baixo o comprimento só chega até o umbigo. Imagino que esta parte que fica á mostra, seja a área mais tórrida do corpo da mulher, que resiste bem ao frio.

Ao contrário do que possam estar imaginando lendo esta crônica, ela não é um protesto e nem chega a ser uma crítica. Na verdade eu a escrevi há uns três anos atrás, mas nunca quis mandá-la para publicação. Como a moda não passou e nem mesmo o frio intenso desses dias a fez desaparecer das ruas, arrisco aqui minha reputação ao dizer que não tenho nada contra as barrigas de fora. Pelo contrário, espero que essa moda dure pelo menos uns vinte anos ainda. Tem certas barriguinhas femininas que despontam como uma recompensa  para os nossos olhos no meio  dessa neblina cinzenta e justificam todo o sofrimento que algumas moças suportam no inverno rigoroso deste ano.

Ângelo Humberto Anccilotto (Jul/2011)