CABOCLINHA DO SERTÃO

Os jornais de sábado passado anunciaram a morte de Tonico e Tinoco. Bem, não foi bem isso. Os jornais não cometeram a mesma gafe de um velho apresentador de televisão que, em 1977, levara Maria Creuza para cantar no seu programa, e depois, cheio de afagos verbais para com a cantora baiana, querendo revelá-la mais detalhadamente ao público, veio com essa: “E aqui está a Maria Creuza, que para quem não sabe, é esposa do Antônio Carlos e Jocafi...” Por mais modernos que os artistas fossem já naquela época, ninguém podia ser esposa de uma dupla. Maria Creuza era casada apenas com o Antônio Carlos. Os jornais também não disseram que morreu Tonico e Tinoco; não explicitamente, mas era isso que diziam nas entrelinhas.

Quem morreu sábado passado foi o Tinoco, o Tonico já havia nos deixado em 1994. Mas o que se diz nos jornais é que Tonico e Tinoco representavam a mais perfeita afinação que uma dupla de cantores já conseguiu alcançar e que entre eles não havia primeira e segunda voz. A dupla era uníssona.  Mas eu, que não entendo de música, não estou escrevendo nem pela morte do Tinoco nem pelo entrosamento de suas vozes e nem sequer para defender a música sertaneja. Escrevo porque meu pai tinha um rádio em casa e eu cresci ouvindo música caipira e escrevo porque houve um tempo em que o Brasil inteiro era caipira. Escrevo também porque houve um tempo em que se morava nas colônias das fazendas e a gente andava pelo caminho passando de casa em casa e sempre havia um rádio ligado e gente sentada nos terreiros ouvindo silenciosamente Viola Cabocla, Luar do Sertão, Moreninha Linda, Chico Mineiro, Tristeza do Jeca, Caboclinha, Mula Preta e outras que a poeira do tempo já encobriu.

Tonico e Tinoco cantavam o que o homem da roça entendia, não só na linguagem como no jeito de sofrer e de sonhar. A morte de Tinoco encerrou para sempre a dupla que ainda existia abstratamente nesses últimos 18 anos, depois que o irmão Tonico se fora. Agora eles não existem mais. Morreu junto o Brasil Caboclo, asfixiado pela nova intelectualidade cultural. É certo que os arquivos da televisão por algum tempo ainda preservarão a memória deles, mas não devolverão jamais as cadeiras nos terreiros, os rádios de pilha, os fogões de lenha, os toucinhos de porco curando no varal ao redor do paiol, o leite no coalho se fazendo queijo e nem o gole de pinga bebido diretamente na boca do garrafão ou o lampião a querosene com sua luz acanhada abrandando a noite espessa. Era nesse cenário que se ouvia Tonico e Tinoco. A música caipira tocando no rádio não apenas combinava com essa vida como era parte integrante dela. Ouvi-la agora em CD, dentro do carro, no You Tube ou nos IPods da vida, não faz nenhum sentido.

Para ouvir Tonico e Tinoco é preciso pensar no canarinho que cantava na gaiola, na Moreninha Linda que nasceu para amar outro homem. É preciso gemer de saudade em cada toada da viola, fechar os olhos e ver a lua prateada surgindo detrás das matas, sentir a presença amiga do velho boiadeiro na lida do gado. Agora, acabou-se o som da viola, acabou-se o Chico Mineiro. E a Caboclinha do Sertão foi-se embora pra cidade, deixando uma triste lembrança. Adeus para nunca mais!   

 Ângelo Humberto Anccilotto (Mai/2012)