OBRAS DE ARTE

Ando pensando em comprar um objeto de decoração para minha casa. Não falo de nenhum quadro renascentista, mas de algum  objeto comum, singelo, cuja silhueta nos remeta à humildade, sem perder a elegância.  Um objeto de decoração é uma escolha para a vida toda, por isso é necessário que seja brando e prenuncie certo enigma, fazendo-nos enxergá-lo diferente em cada dia. É preciso conviver com esse objeto durante longo tempo e chegar ao fim da vida sem tê-lo decifrado e em cada tentativa de compreendê-lo, mais admiração venhamos adquirir por ele. Uma boa obra de decoração não deve ficar na sala estática cumprindo sua função decorativa; ela precisa se comunicar conosco em certas tardes de aborrecimento, nos fazer companhia em noites solitárias, nos dizer coisas, desencavar certas lembranças ou pressupor um novo sonho vida. Eis meu objeto de decoração perseguido, que não precisa necessariamente ser uma obra de arte na acepção do conceito, mas que se insinue no ambiente com força e presença de espírito.

Abordo esse assunto mesmo não sendo um tema de interesse geral, porque recentemente visitei uma corretora de valores na Rua São Bento, aqui em São Paulo, e o dono da corretora tinha em seu escritório num canto da sala um pilão e um moinho de café preso no alto da prede do fundo, próximo à entrada da copa. Fazia sentido, tratava-se de uma corretora especializada na intermediação de contratos de compra e venda de café na BM&FBovsepa. Perguntei ao dono onde conseguira aquilo e ele me respondeu que foi presente de um fazendeiro de Catanduva. Pergunto se algum dia na vida ele usou uma mão de pilão para tirar a casca do café ou um moinho para fazer o pó e ele diz que nunca. Nasceu em São Paulo, se formou em engenharia agrícola e na sequência se especializou em comércio exterior e foi trabalhar na América Central, gerenciando um entreposto de açúcar na República Dominicana. Voltou ao Brasil depois da estabilização da moeda, empregou-se na BM&F e depois constituiu sua própria corretora. Não tem origens rurais, aos seus olhos o pilão e o moinho não são lembranças, são como esfinges frias contribuindo para o toque comercial do seu ramo de negócios.

Os empregados da corretora e os visitantes olham as duas peças, uns acham bonitas, outros as consideram estranhas ali no escritório e essa beleza ou essa estranheza é rasa e se consome no próprio olhar. O pilão e o moinho decoram o ambiente, mas não abrem uma janela de perspectivas para quem os contempla. O próprio dono da corretora que os recebeu de presente tem por eles um afeto apenas casual e os mantem ali mais para demonstrar originalidade aos seus clientes.

O pilão e o moinho não contam nenhuma história a essa gente. Na minha sala no entanto, teríamos longas conversas. O moinho lembraria minha mãe as cinco da manhã rodando seu braço e aparando o pó para depois despeja-lo no coador junto com uma chaleira de água fervendo e o aroma funcionava como despertador para as crianças. O pilão me lembraria também as mulheres da fazenda no sábado ou no domingo de manhã tirando a palha do café em pancadas moderadas. Muita força esmagaria os grãos, por isso as mulheres assumiam essa tarefa e as executavam no fim de semana porque de segunda a sexta havia trabalhos mais pesado na roça.

Entre o pilão e o moinho existia outra peça que o homem não tem na parede, mas ela surge na minha memória completando a paisagem. O café depois de descascado e antes de ser moído precisava ser torrado. Um tambor cilíndrico com uma alça que se apoiava numa base de tijolo sobre um fogueiro improvisado no quintal, era assim que se processava manualmente a torrefação. Minha mãe passava longo tempo girando aquele cilindro sobre o fogo. De vez em quando pedia a um de nós que estivesse por perto para que girasse um pouco o tambor enquanto ela ia lá dentro cuidar de outras coisas. A torrefação se completava quando os grãos ficassem bem pretos e exalassem o cheiro de café torrado denunciando o ato a toda a vizinhança. Inútil negar que tinha café em casa se alguém viesse tomar emprestado.

Na minha sala o pilão e o moinho não seriam esfinges frias de madeira e de ferro; seriam dois velhos amigos de pijama que não trabalham mais e estariam ali todo o tempo perto de mim, silenciosos, enquanto dentro de meu peito e da minha memória a vida ia se desenrolando. Tive vontade de oferecer algum dinheiro pelas duas peças com a mesma força de espírito de quem resgata dois velhos de um asilo, mas achei deselegante propor a compra de dois objetos que foram ganhados de presente. Talvez eu encontre outra coisa.

 Angelo Humberto Anccilotto OUT/2011