UMA FLOR PARA UMA FLOR

 - Quando chegar em casa eu vou jogar fora...

- Jogar fora nada, filha! São tão lindas.

- Lindas, mas o quê que adianta? Daqui a dois dias vão estar secas.

- Põe água que elas resistem mais.

- Ah, não, mãe; não gosto. Elas poderiam ter dado outra coisa. Flor não é presente.

- Claro que é. Toda mulher gosta de ganhar flores.

- Eu não gosto.

- É que você nunca ganhou flor direito.

Mãe e filha conversavam ao meu lado no parque enquanto se alongavam nas barras transversais. A mãe é atleta, frequentadora assídua e facilmente encontrada nas pistas de corrida do Ibirapuera.  Tem perto de cinquenta anos e o rosto sulcado pelo suor que derrama toda manhã, mas seu corpo goza o benefício que o preparo físico lhe dá. A filha só veio aquele dia, tem cerca de vinte anos, idade própria para contestar as flores recebidas, provavelmente de amigas, como presente de aniversário ou por outra comemoração qualquer. A conversa seria corriqueira, como tantas conversas banais que se ouve pelo mundo em ambientes de aglomeração de pessoas, não fosse por aquela última frase que a mãe dissera com convicção e com certo zelo nas palavras: “É que você nunca ganhou flor direito.”

Pensei então que deve haver para as mulheres um jeito certo de ganhar flores, e se porventura uma delas não estiver recebendo do modo correto, a culpa é dos homens, que não aprenderam a fórmula. Ao se expressar daquela maneira a mãe queria dizer para a filha que já ganhou muitas flores, e que algumas, em particular, cravaram-lhe na alma certo perfume que o tempo não desfez. Flores ganhas corretamente, entregues na porta de casa pelo ajudante da floricultura na forma de arranjo com um pequeno cartão manuscrito cuja mensagem, às vezes autêntica, às vezes pouco original, sempre reverenciava a beleza admirada. Ou simples rosas trazidas na mão, acompanhadas de uma garrafa de vinho, numa certa hora da noite em que dois carinhos se buscam mutuamente.

Era, certamente, a esses momentos que ela se referia ao falar em ganhar flor direito. A moça, ao contrário, nunca viveu essas emoções. Sua recordação máxima de um gesto de receber flores talvez fosse somente aquela abordagem estúpida de um adolescente que colhe inadvertidamente uma flor campestre na beira do caminho ou uma flor urbana que desponta no ramo que atravessa as grades do jardim e correndo com a mão escondida atrás das costas se põe ao lado da menina e diz subitamente: uma flor para uma flor!

Muitas mulheres terão apenas essa abordagem vaga para recordar durante a vida toda. Em suas vidas as flores ganhas em momentos especiais se resumirão a essa declaração incipiente que não será levada adiante e se perderá como se perdem os sonhos da juventude. Era talvez contra esta falta de flores na vida das mulheres que a mãe da moça se deixou ouvir falando no meio de tantos homens. Homens que abaixavam as cabeças e esticavam as canelas sobre as barras de ferro para alongar a musculatura fingindo que nada compreendiam.

A mãe da moça pertence a uma geração à moda antiga, que esqueceu as flores pelo caminho e depois foi lembrada pelo Roberto Carlos, lá na de década de 1980, e essa geração saiu atabalhoada colhendo flores nos jardins da vida, na tentativa de reconquistar o amor quase esvaído na mudança de costumes. A filha não pode nem ouvir falar de Roberto Carlos e não gosta de flores. Vai atirar no lixo as pétalas murchas quando chegar em casa. E talvez passe a vida inteira sem receber sequer uma rosa direito. 

Angelo Humberto Anccilotto (Jun/2011)