O MAESTRO

A apresentação era no ginásio do Ibirapuera, o mesmo em que joga a seleção brasileira de vôlei e o Renato Aragão faz o  show do Criança Esperança. O palco ainda estava escuro, apenas algumas luzes de piso iluminavam a possível chegada dos músicos. A lotação ainda não era completa e como o público que chegou cedo não tinha o que fazer, muitos ficavam ouvindo o jogo no rádio pelo celular. De repente um estrondo eufórico de muitos gritos. Gol do Corinthians? Não, o Corinthians já estava ganhando do Figueirense; o gol era do Fluminense. Logo depois um longo aaaahhh, seguido de um silêncio ainda maior. O Vasco tinha desempatado. Pelo resultado do duelo carioca, o Corinthians ia ter que esperar mais uma semana para ser campeão. Quiçá mais um ano.

Três músicos sobem ao palco e buscam seus assentos na penumbra do tablado. Um se senta ao violão, outro ao violoncelo e o terceiro apanha o clarinete. O violonista e o violoncelista arrancam de seus instrumentos notas únicas e isoladas, ajustando as borboletas para afinação das cordas e o clarinetista sopra em tom baixo, captando as variações do som com o ouvido. Percebe-se que são músicos experientes, de carreira longa, que sabem extrair dos instrumentos a melhor sonoridade. Assim se passou mais de uma hora, o público conversando entre si com a prosa vez por outra entrecortada pelas notas solitárias que saiam do violão e do violoncelo.

Depois outros integrantes da banda foram chegando aos poucos. Sim era banda, não era orquestra. Todos tomaram seus lugares, o pianista, o violinista, o baterista, o percussionista, o guitarrista e o baixista. Entre eles, no entanto, há um homem que sobe ao palco, mas não toma posse de nenhum instrumento. Cumprimenta um dos músicos enfaticamente, anda pelo palco de um lado para o outro, de costas para a plateia. Olha o sistema de som, examina um instrumento, depois volta-se para o público e corre os olhos em torno da circunferência do ginásio. Ele tem cara de maestro e tendo cara de maestro, tem cara de Eduardo Lages.

Eduardo Lages é só um nome vago na minha memória, dos tempos que eu comprava fitas k-7 do Roberto Carlos, a 30 anos atrás, e lia na capa as informações em letras miúdas, identificando os compositores, o tempo de cada música, e ficava sabendo que muitas de suas canções tinham os arranjos de Eduardo Lages. Então, não sei por que estranha razão, aquele homem de bigodes que nunca vi antes, nem em fotografia e nem na televisão, que caminha no palco de um lado para o outro, vestindo terno cinza escuro e camisa azul clara sem gravata, tem para mim fisionomia imaginária de Eduardo Lages.

E vem em seguida ao palco o trio vocal que faz a introdução do show cantando “É Preciso Saber Viver”. Quando termina, Roberto Carlos surge entre gritos histéricos das fãs e aplausos que parecem não terminar mais. Na plateia há mocinhas de 15 a 70 anos, assim como no estacionamento há BMWs 2011 e Monzas 1984. Roberto Carlos é um artista universal que atrai representantes de todas as faixas etárias e de todas as classes sociais.

O Rei canta dez ou doze sucessos e conta algumas histórias.  O homem de bigode é mesmo o maestro e rege os músicos quase o tempo todo sem a batuta, apenas indicando com gestos de mão a marcação do tempo e o tom de cada instrumento.

Antes do final, Roberto Carlos reserva um tempo para apresentar a RC9, sua banda de longa data. A maioria dos músicos são amigos dos velhos tempos. À exceção do pianista, que aparenta trinta e poucos anos, todos os demais já passaram dos sessenta. Alguns o acompanham, segundo ele, desde a adolescência e atravessaram juntos a jovem guarda.  Entre os apresentados está o seu genro, que toca bateria. O último a ser mostrado ao público é o homem de bigode, que Roberto chama de meu amigo e compadre Eduardo Lages. A banda então ganha um aspecto familiar. Para encerrar, ele canta “Jesus Cristo” e faz um pouporri das canções mais antigas. Quando termina, se despede atirando, uma a uma, centenas de rosas às fãs.  A banda prossegue tocando. O show agora é do maestro.

 Angelo Humberto Anccilotto (Dez/2011)