SETE HOMENS E UM DESTINO

“Você faz o seu roçado deste toco em diante; você daquele ali pra frente, e eu fico desse toco pra lá.” Essa é a origem dos Três Tocos, na versão que o seu Dudu conta a todos que perguntam. Os homens do roçado eram grileiros de terra e foi assim que resolveram a partilha há quase cem anos atrás. Os três tocos serviram para demarcar as propriedades e deu nome ao povoado.

 Chegamos a esse lugar como se penetrássemos na tela de um cinema na hora de um filme de faroeste. A paisagem remonta no máximo aos anos de 1950. De lá para cá nada mudou no lugar. Não tem asfalto, as casinhas de madeira ou de alvenaria ainda ostentam os modelos primitivos, nunca foram reformadas. O povoado deve ter umas cinquenta pessoas, se tanto. Dava a impressão que a qualquer momento uma legião de índios Terenas surgiria no descampado montando cavalos selvagens, armados de arco e flechas para combater esses pobres intrusos.

É um exagero pensar isso, pois os índios Terenas da região oeste do Estado de São Paulo, hoje não são mais que 200 e vivem em reservas com internet, tevê a cabo e celular; os cavalos selvagens já foram todos amestrados e o descampado não existe mais. Ao redor é tudo invernada e cana de açúcar, como em qualquer outro canto deste Estado. Só o bar na beira da estrada empoeirada, as velhas casinhas e os colonos em volta testemunham uma pequena vila, logo depois do Rio Feio, onde se vive com a sensação de que o calendário marca sempre a mesma data. O movimento se faz pelos caminhões de cana que passam e por carros que seguem para Junqueirópolis ou Tupi Paulista.

Falei que parecia o cenário de um faroeste e o nome apropriado do filme seria Sete Homens e Um Destino. Pois éramos sete, num sábado de manhã, aventurando nas estradas, sem pressa e sem compromisso, com a diferença de que não éramos mercenários de pouco escrúpulo e exímia pontaria, contratados pelos colonos locais para por fim aos saques que os bandidos impunham a uma população humilde de certo vilarejo do México, como no filme de Yul Brinner, Charles Bronson, Steve MacQueem e James Coburn. Não tínhamos duelo nenhum a travar, nenhum inimigo nos esperava atocaiado no caminho. Não fomos fazer justiça nem vingança. Não fomos resolver conflitos de terra, nem atrás de recompensa. Atravessamos a fronteira da Noroeste e chegamos à Paulista em paz. A única coisa que desejávamos matar era a nossa sede.

Agregamos gente no caminho e com a amizade já desenvolvida pelos frequentadores do local, em breve os sete eram quase vinte celebrando uma confraternização improvisada. E como todos andam preparados nessas horas, como velhos caubóis que carregam água e uísque no cantil quando cavalgam no deserto, das duas picapes que nos levaram saíram tomates, alface, limão, mandioca, queijo e, claro... alguns quilos de carne, porque  ninguém é de ferro.

A cerveja foi fornecida pelo próprio bar do seu Dudu. O povo de lá era acolhedor e tinha orgulho em receber esta pequena comitiva de Guaraçaí e eles mesmos se puseram a assar a carne. Um velho senhor de nome Abel, caboclo original que não se vê mais hoje em dia, deixava a vila com mais cara de cenário de faroeste ainda e bebia conosco com simpatia e prazer. Homem que nunca foi muito longe dali, contava-nos histórias do tempo em que jogava bola e mostrava a velha foto do time ainda pregada na parede. Hoje, com setenta anos, passa a vida lentamente no bar, bebendo às suas memórias.

Nosso único tédio era o excesso de azul do céu e o brilho intenso do sol. Nossa única preocupação era reposicionar a cadeira conforme a variação da sombra. Passamos o dia relembrando histórias engraçadas e exageradas de gente que conhecemos. E quando uma lembrança mais profunda nos deixava melancólicos, nosso olhar vagueava na estrada sem fim, e disfarçávamos levando o copo à boca, prendendo no peito um inevitável suspiro de saudade.   Isso aconteceu num sábado, duas semanas atrás, mas a paisagem do lugar nos deu a sensação que estivemos lá há mais de cinquenta anos.

Angelo Humberto Anccilotto ( Ago/2012)