FIAT 147

Muita gente quando acorda espera encontrar ao longo dia alguma novidade, algo ainda inusitado que dê a impressão de que o mundo andou pra frente, ou espera que o dia tenha lá alguma emoção pela qual se acredite que viver vale a pena. Confesso que não é bem o meu caso. Sou avesso a novidades e se dependesse de mim o mundo não mudaria nunca. Creio que esta afirmação não trará prejuízo nenhum às conquistas da humanidade, pois o mundo vem se modificando, com ou sem o meu consentimento. Quantos às emoções, a mim me basta um cena urbana vulgar como a de ontem cedo em que o trânsito na Avenida Pedro Álvares Cabral, eM São Paulo,  fluía em velocidade moderada, indicando provável consgetionamento na 23 de Maio. A mim me basta esta cena comum, principalmente se entre os automóveis que circulam vai um Fiat 147, de cor amarela, em bom estado de conservação, contrastando com o design arrojado dos carros de hoje. Segue bravamente esse paralelogramo amarelo motorizado, quase como um bicho em extinção que acompanha a manada, admirado pelos motoristas que o ultrapassam. Segue sereno na avenida dando testemunho da evolução genética da indústria automobilística.

Parado na calçada, aguardando o sinal de pedestre abrir, só me dei por ele, apesar da visibilidade de sua pintura, quando já ia adiante uns 20 metros, de forma que não pude ver o motorista ou a motorista que o conduzia.  O impacto desse Fiat amarelo fabricado no fim da década de 1970 ou no início da de 1980 passando pela avenida me levou de volta a uma noite de 1982, quando um Fiat igualzinho a este parou na calçada em frente ao bar onde eu estava, e a moça que dirigia abriu o vidro da porta oposta com a maçaneta e curvando-se sobre o banco do passageiro que estava vazio, chamou pelo meu nome. Todos os olhares das mesas do bar naquele momento se voltaram para mim e para a moça e eu senti um orgulho súbito no peito de ser, entre tantos rapazes, aquele a quem ela chamava. Eu queria uma carona?

 Leda Maria sentava-se a duas fileiras na minha frente na faculdade mas era a mim que ela vinha procurar quando tinha dúvidas em algum exercício que o professor passava, embora eu admito que em algumas ocasiões foi ela quem me socorreu,  e no intervalo das aulas aguardava eu descer para tomar café ou comer um pedaço de pizza na cantina. Eu era um rapaz simples, cuja história de vida cabia numa conversa de dez minutos, ou até menos. Então, era ela quem sempre puxava assunto. Aquela fatia de pizza emborrachada que eu comia em silêncio enquanto ela contava detalhes do seu dia e da sua vida, foi durante muito tempo o meu jantar na época de estudante. E houve uma noite em que ela falou do carro novo que o pai lhe dera para ir à faculdade. Um Fiat 147 amarelo, zero quilômetro, movido a álcool. Ela estava feliz.

Não sei a que caminhos Leda Maria teria conduzido minha vida se eu aceitasse sua carona naquela noite, mas o fato é que eu acabara de me sentar com os colegas de Economia a uma mesa que o dono do bar improvisara na calçada em frente a faculdade e respondi que  iria ficar mais um pouco e me lembro de tê-la convidado a se juntar a nós mas ela alegou que precisava ir, fechou o vidro novamente, se ajeitou ao volante, passou a marcha e partiu em seu carro novo, talvez levando nele o peso de um instante de desilusão.

Nunca mais pensei em Leda Maria a não ser agora que este Fiat amarelo surge na avenida disputando espaço com os Honda, os Hyunday os Ford e os Citroen. E como não vi o motorista, me veio na cabeça a ideia de que ainda é ela que está ao volante. E penso que me viu ali na calçada esperando o sinal abrir, me reconheceu, mas desta vez não teve nenhuma vontade de chamar pelo meu nome.

Angelo Humberto Anccilotto (Set/2011)