O GARÇÃO E O FIM DO ANO

Quem não vive para servir, não serve para viver!  Se o facebook tivesse sido criado antes de 1980 certamente esta pseudofilosofia bateria o recorde de compartilhamento. Descobriram essa frase naquela época e todo mundo saiu repetindo. Uns para tornar menos dolorosa a sua subserviência e outros para disfarçar a prepotência e o orgulho em humildade.

Mas chegamos às ultimas semanas do ano, ocasião em que bares, lanchonetes e restaurantes vivem abarrotados de clientes. Quem sai mais tarde do trabalho, como eu, precisa ter paciência de monge tibetano para achar uma mesa vazia depois das 8 da noite. E dentro desses bares e restaurantes trabalham as pessoas que servem para viver, pois vivem para servir. 

Isso em todas as escalas, desde os restaurantes mais refinados onde o mâtre nos recebe na porta e nos acompanha até à mesa e depois chama o garção da ala para anotar o pedido, até as cantinas mais populares onde o próprio garção retira os pratos e troca a toalha da mesa que acabou de esvaziar.  A rotina de servir as mesas é um ato de bravura desempenhado por esses nobres profissionais, ante um público que aumenta cada vez mais na busca dos prazeres da noite. E em especial na alta temporada, representada pelas últimas semanas do ano.  

Houve um tempo em que o cliente de bar ou de restaurante fazia o pedido ao garção; hoje, ele simplesmente passa uma ordem. Ao menor indício de irregularidade nos pratos, nas bebidas ou no atendimento, erguem-se consumidores dispostos a reclamar, a reivindicar, a exigir a perfeição do serviço, até às vias de constrangimento para o homem que trabalha para abastecer a mesa.

A moça reclama que ele trouxe o refrigerante errado, o garção contesta, resguardando sua experiência em trazer latinhas para a mesa: Você pediu soda! Ela reage: o que eu quero é aquele da latinha azul. Ele ensina: soda é essa da lata verde. E por fim se descobre que a moça queria água tônica e não shweps. O garçao leva a lata que ela pediu errado e volta com a certa.

Na mesa seguinte o moço que faz academia e só bebe refrigerante (diet!)  pede guaraná com gelo e laranja e ao levar o copo à boca cospe fora e reclama que veio uma semente junto.  Aquela esperança de que o mundo seria melhor no ano que vem quase vai pras cucúias quando a gente vê um moço barbado de quase trinta anos de idade discutindo com o garção por causa de uma semente de laranja que veio no copo.

E os pratos customizados? Ninguém mais se contenta em comer aquilo que o cardápio descreve.  Há sempre alguém querendo trocar a batata soutée por batata portuguesa ou o molho de queijo pelo molho de bacon. Tem até quem saia para comer moqueca baiana mas pede  para o garção não colocar azeite de dendê. Garçom não é cozinheiro nem chef de restaurante, não cozinha, não grelha, não gratina, não frita nem flamba. Não prepara caipirinha, não espreme laranja nem adoça o suco, não põe a cerveja no freezer. É só um pobre coitado que circula em corredores exíguos, entre mesas e cadeiras, aprumando sobre os ombros uma pilha de pratos, de garrafas e copos na bandeja, desviando de pessoas que atravancam a passagem, mas é ele quem leva as bordoadas: Tá sem sal!  Pedi bem passada, veio sangrando! Esta tá muito quente, traz outra mais gelada! Esse peixe tá meio esquisito!   

Garção, dá par ligar o ar condicionado? Dá pra abrir a janela? Dá trocar esse garfo? Dá pra enxugar a mesa? Esse prato dá pra dois? Dá pra trazer mais molho? Dá pra trazer conta? Traz um café. Dá pra trazer a maquininha do Visa? Dá pra carimbar o tíquete do estacionamento? Dá pra por o CPF na nota? Onde fica o banheiro?... Fim de ano de garção é um inferno.

Angelo Humberto Anccilotto (Dez/2013)