TOUR DE FRANCE

Lá na França, o Rei Luiz XIV não estava em Versalles, nem Luiz XV e Luiz XVI, e Maria Antonieta fugira por uma porta secreta na esperança louca de escapar da guilhotina. Mas os súditos da França tinham deixado o jardim impecável, embora com poucas flores, apenas as que ainda restavam da última primavera. O ouro e a prataria brilhavam como riquezas intermináveis nos imensos salões do castelo. E os quadros das paredes, desenhados sob encomenda real a pintores vassalos, cansavam de insinuar divindade à realeza.

Em Giverny, o pintor Claude Monet também não veio nos receber. Estava em viagem ao redor do mundo expondo sua arte impressionista, mas deixou seu jardim e suas aves, como mensagem aos que procuravam por ele. A Fundação que hoje administra seu pequeno sítio foi quem fez as honras da casa e nos permitiu andar entre flores e sobre pontes de madeira que traspassam os lagos tantas vezes retratados pelo pintor.

No centro de Paris, Ernest Hamingway, ocasionalmente, não estava em seu bar predileto. Provavelmente interrompera as farras noturnas para caçar brisas e aventuras na África, deixando para trás a guerra espanhola, sem se importar por quem os sinos dobram. O bar estava fechado e em reforma, e quem nos recebeu foi um operário da obra, com a promessa de que a casa reabriria em dois anos. Economizei alguns scotchs, mas fiquei devendo um brinde ao Velho e outro ao Mar.

August Rodin alugou seu casarão e se mudou para lugar incerto. Sucessivos inquilinos foram ocupando o espaço, deixando mensagens ao antigo morador até que viesse um instituto para transformar o espaço em museu e preservar suas esculturas para a visitação pública e nos receber em nome do artista ausente.

Quando chegamos à casa de Vitor Hugo, era domingo e além de ser domingo era 14 de julho, dia que os franceses dedicam-se exclusivamente às comemorações da queda da Bastilha. Vitor Hugo não estava, certamente andava pelas ruas espiando a felicidade que a Revolução Francesa ainda proporciona ao povo, mais de 200 anos depois.  Sua antiga maison  estava fechada, batemos com a velha aldraba de ferro na porta de madeira, mas nenhum ou nenhuma concierge veio abri-la.

Em Montmartre, o louco Salvador Dali nos convida a entrar, mas não permanece entre nós. Surrealistamente desaparece pelas escadas, deixando um rastro de obras e esculturas para nenhuma (ou diversas) compreensões, além de uma gargalhada emblemática que termina numa exclamação de autoafirmação: Le surréalisme c’est moi. 

O jeito foi bater no centro histórico à procura do poeta Paul Verlaine.  Este sim nos recebeu. Não ele em pessoa, mas o garçom de La Maison Verlaine, restaurante em que se transformou a antiga casa do poeta. Lá, embalados pelo coquetel, pelo filé de salmão, e pela simpatia do garçom, tinha-se a impressão que Verlaine (o poeta que mais sofreu, segundo Mario Quintana) nos observava do andar de cima do sobrado, enquanto à mesa líamos seus poemas na primeira página do menu. Paris é isto, uma festa que prossegue, mesmo quando os anfitriões já dormem profundamente.

Angelo Humberto Anccilotto  (Jul/2012)