IMAGENS

Era assim: A gente andava na estrada do cemitério, e ali por onde hoje tem o Velório Municipal, tinha um enorme barranco em cada lado da estrada, e o piso do caminho era de terra dura, salpicado de pedregulhos que sentíamos espetando a sola dos nossos pés dentro da conga ou do chinelo havaiano. E não era só na estrada do cemitério, não. A própria linha de ferro era margeada por barrancos altos que o trem parecia que passava dentro de um túnel. O pontilhão próximo a onde funciona agora a Casa do Idoso era tão alto que dava até medo de passar lá em cima. Encostávamos na grade e dava arrepio de olhar para baixo. Quando nos aventurávamos a andar sobre os trilhos, era meio sombria a passagem debaixo daquela ponte. As pilastras de cimento que a sustentavam eram “infinitamente” altas e a gente admirava aquela estrutura digna da mais complexa obra de engenharia que já tínhamos visto.

Não existem mais essas alturas. As colunas do pontilhão não chegam a cinco metros e hoje sabemos que a complexa obra de engenharia foi composta apenas de quatro formas de madeira que fundiram o concreto armado para sustentar as duas vigas onde se apoiavam as pranchas de madeira. Pranchas que foram substituídas por cimento asfáltico hoje. E os barrancos desapareceram. Hoje cruzamos a linha do trem em nível em quase toda sua extensão. E nem é necessário mais parar, olhar e escutar, como dizia o aviso da cancela, pois os trens agora são muito escassos. Não sei que estranho fenômeno aconteceu nesses caminhos. As encostas se rebaixaram ou a cidade se elevou? E a essa altura você pode estar achando essa conversa meio esquisita. Afinal, que falta fariam os velhos barrancos das estradas e da linha do trem para a população da cidade?

Não fazem falta, você tem razão. Ficou até melhor assim. As margens da estrada do cemitério e da linha do trem na forma de planície melhoram a paisagem e facilitam a travessia. Mas certas imagens se instalam em nossa memória e não conseguimos removê-las do hipocampo. Não pense você que fico horas e horas me lembrando dos antigos barrancos que haviam nas estradas de Guaraçai, mas em certos momentos, repentinamente, me vejo atravessando a linha e subindo a escada de degraus de terra que havia lá perto do antigo embarcadouro municipal. Escada construída com nossos próprios pés que todos os dias escalavam o barranco para ganhar a estrada boiadeira lá em cima, e de lá desembocar em outros caminhos. Era um atalho que de alternativo se fez oficial. Vinha a chuva e desbarrancava os degraus; a prefeitura naquele tempo andava empenhada em construir escolas, furar poços artesianos, fazer pontes, asfaltar o centro da cidade e não dispunha de gente nem de dinheiro para refazer a nossa travessia. Então, sempre aparecia alguma alma boa com uma enxada e cavava o barranco, refazendo os degraus.

Também revejo algumas árvores aflitas, com as raízes descobertas, em cima dos barrancos tombando sobre as estradas, como um suicida prestes a se atirar no precipício. E sempre havia no alto desses barrancos uma cerca de arame de onde um esteio desprendido da terra pela erosão balançava no ar. Mas a minha mais fiel recordação é que junto a essas cercas sempre havia um cavalo pastando.

Vieram as máquinas pesadas, cortaram as encostas, compactaram os aterros, os donos das chácaras retalharam suas propriedades e as venderam em lotes, e tudo se nivelou num único plano. Só eu ainda subo aqueles velhos degraus com agilidade e vigor de um menino. Só eu ainda ouço a súplica das árvores tombadas, como almas ajoelhadas em penitência, implorando ajuda a quem passe no caminho. E vejo os esteios balançando no ar, presos no fio de arame, como fugitivos mal sucedidos, recapturados pelo colarinho.

E ainda avisto lá em cima, no cair da tarde, um cavalo magro, de olhos tristes, ruminando distraidamente a sua longa solidão.

Angelo Humberto Anccilotto (Out/2010)