A RUA TRISTE

Deixamos a praça do Relógio e vagamos por ruas estreitas e tortas.  Espiamos de passagem o museu de Kafka, onde o escritor, morto há 80 anos, continua a iluminar o povo daqui através de sua metáfora em  A Metaformose e seu realismo crítico em O Processo. Depois, sobre os 520 metros da Ponte Charles contemplamos as 28 imagens sacras ancoradas lado a lado sobre os pilares que afundam no rio Vltavá, que divide a cidade ao meio, e desembocamos por fim em Malá Strana, centro da aristocracia tcheca que hoje abriga muitas embaixadas. Como já passasse das três da tarde, tínhamos fome e acomodamo-nos numa mesa na calçada, num restaurante de esquina na confluência das ruas Karmelitská e Trzisté.

Por mais que me esforçasse, jamais iria pronunciar o nome dessa rua no original, por isso logo de início a chamei de Rua Triste, e por não conseguir chamá-la por outro nome, essa idéia de tristeza trouxe certa melancolia a essa rua estreita, toda em curva e toda barroca, cujos poucos automóveis que desciam por ela paravam ao nosso lado cedendo a preferência para os motoristas que vinham da Karmelitská. Enquanto aguardava a comida, pedi um aperitivo, algo como uma cachaça que aqui é produzida de cereja.

Consumindo minha bebida lentamente, em goles miúdos, eu pensava na Rua Triste e em todo o povo dessa antiga Tchecoslováquia. São pessoas simples que passam pelas ruas desta capital, que se distinguem dos turistas pelos cabelos lisos e louros e os olhos invariavelmente azuis, mas que detestam ser confundidos com os alemães; que se vestem em roupas triviais sem ostentação de luxo ou sensualidade, como estamos acostumados a ver nos países do lado ocidental da Economia deste planeta. Jovens que passam falando ao telefone celular como em todas as cidades do mundo, mas sem alarde, em voz comedida e pausada sem os atropelos e exigências à que já nos habituamos hoje em dia. Não se trata de uma gente pobre, mas está longe de encabeçar o ranking dos povos abastados da Europa. Em suma, um povo que vive o esplendor da jovem democracia, de costumes socialistas, frente às oportunidades que o capitalismo sugere. Gente que vai resolvendo seus problemas sem criar outros no lugar.

Estava, assim, perdido nessas imagens quando desceu pela Rua Triste e parou ao nosso lado uma longa limusine branca, com enfeites nupciais, denunciando que haveria um casamento nas imediações, em plena tarde de uma quinta-feira. Minutos depois, vimos aproximar-se a noiva que descera andando a rua, resplandecendo em seu vestido cândido e na grinalda de muitas flores. Admiramos aquela cena e todos os que estavam nos restaurantes próximos levantaram-se para olhar a noiva que passava e tinham no rosto um sorriso de satisfação, como se fossem os últimos convidados a receber a participação das bodas.

Ela se aproximou da limusine, entrou e seguiu pela Karmelitská, onde certamente um jovem nubente havia de estar esperando no altar de alguma das igrejas daquele lugar. O povo aplaudiu. Na passagem da noiva a Rua Triste se vestiu de branco e foi por um momento naquela tarde a rua mais alegre da cidade de Praga.

Angelo Humberto Anccilotto (Jul/2008)