KUTNÁ HORA

Kutná Hora fica a uma distância de 80 quilômetros de Praga. Mas também pode ser mais de cem, ou menos de setenta, dependendo da estrada que se pega, e elas são muitas neste país. O aconselhável é ir pelo caminho mais longo para apreciar a natureza. Não que a República Tcheca seja dotada de uma natureza exuberante, capaz de permanecer na memória da gente para sempre, mas possui uma natureza mansa, com vastos campos de trigo amarelos ao longo do caminho, com inúmeros pequenos rios que cruzam as estradas sob as pontes, de repente, como se emergissem de uma tela à óleo de alguma galeria de arte, e de florestas que lembram os bosques dos contos de fada. Fechando os olhos é possível imaginar ursos, lobos, Joãozinho e Maria, Chapeuzinho Vermelho e caçadores, entre as árvores finas e altas.

A aventura maior do passeio foi esta: visita a uma mina de prata, fonte do esplendor da cidade nos tempos medievais. Entra-se por um museu, onde estão os artifícios usados na escavação (martelos, ponteiros, picaretas, coisas de setecentos ou oitocentos anos muito parecidas com os instrumentos atuais). Para entrar na mina é preciso vestir-se com uma capa branca de tecido e usar um capacete, apanhar uma lanterna a pilha que o museu fornece, andar pela rua paramentado dessa forma, entrar por um portão, seguir um corredor e começar a descer, em degraus de madeira, cerca de setenta metros. Todos que seguiam nessa visita eram tchecos, a exceção de uma família polonesa, que não tinha muita dificuldade, dada a proximidade das duas línguas. Eu era o único que não entendia nada do que a mocinha loira que nos guiava ia dizendo e procurava interpretar suas expressões faciais e trejeitos para me contextualizar. Andamos por cerca de meia hora em trilhas cavadas nas pedras (Kutná Hora em tcheco quer dizer Montanha Cavada) tão estreitas que mais de uma vez precisei andar de perfil, esfregando as costas e a barriga nas paredes úmidas daquela imensa caverna.

Em determinado momento, num local em que a escavação era mais ampla, a moça pediu que apagássemos a lanterna, e então pudemos “ver” toda a escuridão do seio da terra. Mesmo trajando a capa e o capacete brancos, próximos uns dos outros cerca de meio metro, não conseguíamos ver o colega do lado. Somente a voz da moça explicando-nos as coisas rompia o silêncio e abrandava as trevas. Como não entendo tcheco permiti-me pensar em outros assuntos, e me passava pela cabeça a imagem de homens rudes, enlameados arrastando caixotes cheios de minério de prata nessa vala estreita para levar a uma fornalha no sopé da montanha, que depois viraria dinheiro, poder, herança, disputa, inveja, cobiça e morte. E ocorreu-me imaginar que aquela escuridão absoluta deve ser a mesma escuridão que leva na alma todo homem que se atira à caça de riqueza.

Angelo Humberto Anccilotto (Jul/2008)