GUARAÇAI E OS SONS DA VIDA

A vida dos boêmios e dos trabalhadores noturnos de Guaraçaí ficou complicada de uns tempos para cá. Não que o problema seja a lei seca ou que faltem opções de trabalho, mas é que o complicador aparece na manhã seguinte. Pessoas que se enquadram nessas duas categorias trocam o dia pela noite, ou seja, mantém-se de pé enquanto a cidade repousa e vão para a cama quando o sol vem despertando. Mas logo cedo os sons da rua começam avançar pelo quarto e não tem porta trancada, janela cerrada e cortina estendida que impeça o barulho.

Anuncia-se de tudo em elevados decibéis produzidos pelos potentes amplificadores dos carros de propaganda. Liquidação e promoção de lojas e supermercados, jogo de futebol, baile, quermesse, leilão de gado, nada acontece na cidade que não seja divulgado à exaustão até que o mais distraído dos habitantes tome conhecimento do evento.

Não que essa barulheira toda me incomode; tenho por hábito levantar cedo e quando estou em Guaraçaí, via-de-regra em fim de semana, não faz muito sentido acordar tarde numa cidade que pratica o sábado inglês. Além disso, o som que desperta, ainda que não seja o som produzido pelos elementos da natureza como preferem acordar aqueles que amam o ambiente zen, é o som da vida que vai acontecendo, porque anunciar promoções para o lojista e divulgar festas para o promotor de eventos são formas peculiares de tocar a vida.

Há, no entanto, em meio a esse pregão, um anúncio que entristece a todos. Precedido de uma introdução fúnebre que faz a dona de casa desligar o liquidificador, o carpinteiro conter a pancada do martelo e os vizinhos suspenderem a prosa no portão, a voz emocionada do anunciante se eleva sobre esse minuto de silêncio que a cidade sem saber organizou, para noticiar o falecimento de um conterrâneo. De imediato pode até não se reconhecer o obituente pelo nome anunciado, mas não demora muito e um vizinho ou transeunte esclarece de quem se trata. Feito o anúncio da morte, ás vezes esperada, ás vezes imprevista, a cidade mergulha em reflexão e em saudade do irmão que partiu. É nobre esse sentimento e necessária essa informação, ainda que cause dor. Ninguém foge ao seu destino e morrer em Guaraçaí é a mais alta recompensa que se pode levar da vida.

Mas me ocorre agora que na contrapartida da morte, nesta cidade onde tudo é compartilhado, alguém devesse assumir também a participação dos nascimentos. Seria bom se uma cantiga de ninar prenunciasse a chegada de um tenro habitante que aqui haveria de se fazer gente e ser feliz. Seria bom que ao embalo da sonora novidade, todos os munícipes cantassem uma canção alegre,explodissem uma champanhe, abrissem uma cerveja ou bebessem uma cachaça entre amigos no mais humilde dos bares da cidade em homenagem ao pequenino que acaba de vir ao mundo. E a voz do informante anunciando no carro de som o nascimento de mais uma criança na comunidade, bateria em nosso peito como uma mensagem de Deus chamando os homens para o tempo de viver.

Angelo Humberto Anccilotto - Abr/2004