CORTESIA COM O CHAPÉU ALHEIO

Na crônica da semana passada eu disse que uma entrada de cinema em São Paulo custa quarenta reais. É verdade, mas aí alguém me lembrou de que os jovens estudantes (de quem eu reclamava) pagam meia entrada, portanto o desperdício deles pela desatenção ao filme é menor.  Certo. Estudantes e pessoas acima de 60 anos, e algumas categorias profissionais, conforme convenio, apoiados em lei federal, tem direito a pagar a metade do valor em espetáculos culturais em geral. A lei funciona e os beneficiários a utilizam. Certo, Ministério da Cultura? Certo! Certo, Funart? Certo! Certo Ancine? Certo! Certo, donos de casas de espetáculos? Certo!  Certo, jovens estudantes? Certo! Certo, Estatuto do Idoso? Certo! Certo, frequentadores de cinema e teatro não estudantes e abaixo de 60 anos? “Errado! O preço do cinema era trinta reais, a sala tem capacidade para cem espectadores, então cada secção de cinema arrecadava três mil reais. Aí vem a lei e diz que cinquenta ingressos devem ser destinados ao público de meia-entrada. Então o dono do cinema eleva o preço da entrada para quarenta reais e vende cinquenta ingressos pela metade do preço faturando mil reais e cinquenta ingressos ao preço cheio, que dá dois mil reais. No fim das contas dá os mesmos três mil reais de antes.  E eu passei a pagar dez reais a mais”.

Um cidadão correntista ou usuário de agência bancária costuma ir ao banco uma vez por semana e a agência bancária tem dois caixas para atendê-lo. Mas um parlamentar se comove com a situação das pessoas idosas que ficam na fila esperando a vez de serem atendidas por esses dois caixas. Então ele faz uma lei que obriga as agências bancárias a terem um caixa exclusivo para atendimento de pessoas idosas. As pessoas em geral ficam na expectativa de os bancos abrirão vaga de caixa para atender os idosos. O tio avisa ao sobrinho desempregado que fique de olho porque a qualquer momento o banco vai recrutar mais funcionários para cumprir a Lei. E a lei entra em vigor.  Tudo certo, Procon? Certo! Certo, Febraban? Certo! Certo, gerente do banco? Certo! Certo, pessoas idosas? Certo! Tudo certo, correntista não idoso?  “Não! O banco frustrou os aspirantes ao emprego e não contratou ninguém, apenas pegou um dos dois caixas e colocou a plaquinha de atendimento preferencial e eu que demorava quinze minutos na fila agora demoro trinta, porque só tenho um caixa para me atender”.

Já faz quarenta anos que as mulheres entraram pra valer no mercado de trabalho. Levantam cedo, tomam condução, batem ponto, etc. Mas mulheres são mães e mães não podem se aparatar dos filhos; pelo menos nos seis primeiros meses de idade as mães precisam ser mães em tempo integral. Então, o governo, sabiamente, cria uma lei para que toda mulher, ao dar luz, tenha direito a seis meses de licença maternidade. E assim, amparada na lei, no finalzinho da gestação, a mãe se ausenta do trabalho e só retorna seis meses depois. Certo, Ministério do trabalho? Certo! Certo, Justiça do Trabalho? Certo! Certo, Sindicatos dos Trabalhadores? Certo! Certo, empresários? Certo! Tudo certo, mamães? Certo! Certo, colegas de trabalho das mamães licenciadas? “Errado! Nunca vimos uma empresa levar essa ausência em conta na dotação de pessoal. Se determinado departamento tem sete funcionárias e uma delas se ausenta pela licença, o trabalho da sétima funcionária será repartido entre as outras seis, de forma que é como se em seis meses cada uma de nós tivesse trabalhado um mês a mais, pelo mesmo salário”.   

Fazer cortesia com o chapéu alheio é, basicamente, ser generoso à custa de alguém. Tem a ver também com aquela reverência que os cavalheiros fazem  às damas, tirando o chapéu da cabeça, curvando o corpo e esticando a mão estendida na passagem da mulher.  A lei não é cortesia, nem generosidade, é só uma grande justiça que se faz aos beneficiários. Mas as leis custam e nenhum dos envolvidos na sua criação botou a mão no bolso; a conta ficou por minha conta. É como se o governo e as demais instituições deste país se curvassem na frente dos favorecidos acenando a eles o chapéu que tiraram da minha cabeça.

Ângelo Humberto Anccilotto (Set/2014)