A COMPANHEIRA DE VIAGEM

Existem coisas na vida da gente que mesmo que saiam erradas é possível consertar. Aciona-se um plano B, e por meio dele altera-se o resultado do plano original, antes que ele se consuma. O que iria dar errado, acaba se acertando. Mas tem coisas que não tem jeito. O plano A não comporta alterações; errou fica errado para o resto da vida. A ilustração dessa “tese”  ocorreu comigo quando eu tinha cerca de 20 anos e viajava freqüentemente de São Paulo a Guaraçaí, nas noites de sexta-feira. Talvez nem todos lembram, mas a Marechal Rondon não passava de uma vicinal intermunicipal, de mão dupla e acostamento precário, e os ônibus da Reunidas não tinham ar condicionado. Mas a juventude dota de aventura o nosso espírito e de resistência o nosso corpo, então, podia-se viajar a noite inteira da sexta-feira, sem pregar o olho, passar a noite de sábado novamente em claro e viajar de volta no domingo,e ir à faculdade na segunda-feira sem prejuízo da concentração mental.  Atualmente, se durmo às duas da manhã num sábado, só a partir da quarta-feira seguinte é que deixo de bocejar no trabalho.

Mas aconteceu que, entediado das viagens noturnas, certa vez, em férias, resolvi viajar durante o dia. Havia um ônibus que partia da Rodoviária do Tietê às 9 da manhã e chagava em Araçatuba às 5 da tarde, tempo suficiente para embarcar no ônibus da Ilha Solteira que entraria em Guaraçaí perto das sete e meia da noite. Ocorre que mal chegara em Jandira, o radiador da velha jabiraca começou a  ferver. O motorista parou o veículo, abriu a tampa do compartimento traseiro e uma fumaça branca invadiu a estrada. Para não tornar essa narrativa muito cansativa, basta dizer que essa cena se repetiu mais três ou quatro vezes. O motorista parava, dava um jeito de arrumar água para o radiador, esperava o motor arrefecer e tocava em frente.

Em uma das paradas, uma moça que viajava na frente veio até a minha poltrona olhar pela janela e me perguntou o que estava acontecendo. Minha ignorância em mecânica de automóvel não me permitiu diagnosticar o problema e respondi a coisa mais óbvia e estúpida da minha vida: o motor deu defeito. Essa resposta, no entanto, não a desencorajou de voltar a minha poltrona nas outras paradas e puxar assunto. Enquanto apreciava o balé do motorista que ia e vinha e abanava a fumaça com uma toalha molhada, ela puxava conversa mesmo percebendo que falava com um rapaz tímido e de pouca comunicabilidade. A companhia amistosa que fizemos um ao outro, foi o que nos livrou da irritação do que poderia ser uma viagem mal sucedida.    

O fato é que entramos em Bauru perto das três da tarde e um mecânico já havia sido acionado para resolver o problema do esquentamento do motor. O conserto durou cerca de uma hora e nesse tempo fizemos um lanche e bebemos um suco; ela comprou um sorvete e fez questão de dividi-lo comigo. Partimos de Bauru já perto das quatro da tarde e a essa altura eu já não tinha mais esperança de alcançar o ônibus da Ilha Solteira e isso me trouxe uma grande felicidade. Viajar sem hora marcada para chegar é como viajar numa dimensão acima do nosso tempo. Desembarcamos em Araçatuba já dentro de uma noite quase espessa, porém havia um ônibus que seguiria para Três Lagoas em quarenta minutos. Minha companheira de viagem morava por ali e foi ao telefone público fazer uma chamada a cobrar para que alguém da família viesse buscá-la na rodoviária, o que aconteceu em cerca de dez minutos. Antes de se despedir, ela me entregou um pequeno papel com um número de telefone e pediu que eu fizesse contato. Apertamos nossas mãos e ela partiu.

Talvez eu não devesse publicar isso, mas naquele tempo eu era fumante. Puxei um cigarro do maço, acendi e fiquei olhando ela ir embora. Ato contínuo, dobrei o papel e o guardei naquele invólucro de plástico transparentes que protegia os maços de cigarro antigamente. Tomei o ônibus para Três Lagoas, desembarquei no trevo de Guaraçai e fui andando até a cidade. No dia seguinte, caminhando pela rua, retirei o último cigarro do maço, amassei a embalagem já vazia e joguei numa caixa de lixo próxima ao Leão das Roupas. Na sequência encontrei um amigo, conversamos, comprei outro maço de cigarros no Expedito e ao abri-lo me dei conta de que havia descartado o telefone da moça junto com o maço vazio.   

Se alguém me viu nesse dia revirando as lixeiras da Rua Dona Alcides saiba que foi por um motivo justo e urgente. Os jovens de hoje possuem um menu extenso de opções para se comunicarem uns com os outros, mas na minha juventude a vida era precária em todos os sentidos. Aquele papelzinho com os oito dígitos do código de um telefone que a carreta da limpeza pública puxada pelo velho Massey Ferguson da Prefeitura levou embora era o único elo possível de nos manter unidos no futuro. Atirá-lo no lixo como eu fiz foi o mesmo que jogar fora um sonho com todo potencial de perspectivas azuis que existia dentro dele.

 Angelo Humberto Anccilotto (Set/2011)