MENTIRAS

Segundo o poeta Mário Quintana, a mentira é uma verdade que não aconteceu. Esteticamente essa talvez seja a melhor definição. A mentira é, de fato, uma ficção, e exige cenário e enredo imaginários para ser contada com força e inocência capaz de se fazer acreditar. Uma vez acreditada a mentira fica sendo verdade. Uma verdade que não aconteceu. Existem variações de mentiras. Aquelas que são apenas um desejo não realizado, que seu ator, de tanta desejá-la, passou a acreditar nela, e existem aquelas que vêm combinadas, com uma parte sendo verdadeira e outra parte sendo falsa, mais ou menos como um bolo bem confeitado que trouxesse por dentro molho de pimenta em vez de creme de chocolate.

A mentira faz parte da nossa vida. Eu próprio defendia até algum tempo atrás a tese de que uma mentira na hora certa é melhor que uma verdade na hora errada. Já não defendo mais; não por moralismo absoluto, mas porque assim como tantas asserções que um dia foram verdadeiras em minha vida, agora são duvidosas. Achei que a idade me traria certezas, mas ela me trouxe bem mais dúvidas.  Mas chega de filosofia de botequim e vamos ao que interessa. E o que interessa, de verdade, é a vida sem mentira.

A vida sem mentira seria uma estrada pavimentada, sem buracos e plana, reta e previsível, sem artimanhas e surpresas. Seria olhar para as pessoas e conhecer seus pensamentos. Se ela dissesse que está tudo bem, certamente estaria; se dissesse que estava precisando de dinheiro, de fato estaria; e acaso dissesse que não queria conversa o jeito era sair de perto. Seria um grande conforto para os casais, que não andariam mais com a pulga atrás da orelha, desconfiando um do sentimento do outro, e para os chefes de expediente, que não requisitariam atestado quando o funcionário telefonasse dizendo que faltou ao serviço porque foi levar o filho ao médico.    

Esse projeto de vida franca me ocorreu a partir de um filme visto recentemente na televisão com o título de “O Primeiro Mentiroso”. No filme, uma pequena comunidade vivia uma vida moderna e sincera. As pessoas iam aonde diziam que iam e vinham de onde diziam que tinham ido. Contavam uns aos outros o que realmente aconteceu, sem invencionices e sem especulação.  Até que no seio dessa comunidade se infiltraram dois ilustres desconhecidos vindos de outro tempo e de outra realidade. Numa das cenas mais ilustrativas do filme os forasteiros vão jogar no cassino e como percebem que ali todos acreditam na palavra alheia, eles procuram o gerente do salão para reclamar que haviam ganhado uma fortuna, mas a máquina não liberara as fichas, ao que o gerente, então, que nem sonhava que pudesse existir  pessoas que dizem coisas que não aconteceram, ordenou a um auxiliar que desmontasse a máquina e  pagasse aos cavalheiros todas as fichas que estavam retidas no cilindro.      

A vida sem mentiras pressupõe espírito puro e deixa as pessoas vulneráveis às artimanhas maliciosas, a fraudes e corrupção.  Assim como a serpente destruiu o Paraíso, os forasteiros destruíram a pequena comunidade. Apesar de ter perna curta, a mentira deu volta ao mundo.  A partir de então a palavra ficou desacreditada, foi preciso arrumar testemunhas para comprovar a veracidade dos fatos. Foi preciso registrar contratos em cartório, pois o acordo verbal não tinha valia. Foi preciso reconhecer firma no tabelião para garantir a autenticidade da assinatura.  Foi preciso, enfim, viver em eterna desconfiança: Foi isso mesmo que aconteceu? Você viu? Quem te contou? Você jura? A palavra sem valor rebaixou o homem; fê-lo descer o primeiro degrau do inferno. E daí para as profundezas foi moleza, afinal, morro abaixo todo santo ajuda. Bem, nesse caso já não é verdade. Tem ocasiões em que é o próprio diabo quem empurra. 

Angelo Humberto Anccilotto (Mai/2012)