O INFERNO SÃO OS OUTROS

“O inferno são os outros” afirmou o senhor Jean-Paul Sartre lá nos meados do século passado. E se naquele tempo, quando a Terra tinha “apenas” 2,5 bilhões de habitantes, isso era verdade, imaginem agora, em 2014, quando nosso planeta já passou dos 7 bilhões. Ou seja, nosso inferno é três vezes maior que o do senhor Sartre.

Não vamos considerar que todas as pessoas do mundo são capetinhas a nos cutucar com seus tridentes; ainda existem no mundo anjos em forma de gente que tocam lira no nosso caminho e nos confortam a alma. Mas, por outro lado, o Diabo se deu bem com as inovações tecnológicas. Tenho a impressão que o Vale do Silício, fonte de matéria-prima dos chips de comunicação, é na verdade, o grande Vale do Inferno, onde o Coisa-ruim funde os circuitos eletrônicos.

O inferno se propaga nos supermercados. O cidadão vai às compras, mas acha por bem consultar o facebook bem na frente da gôndola de biscoitos. Você contorna o carrinho dele, estica o braço, tenta apanhar um pacote mais escondido, mas o cidadão não se move enquanto não curtir todos os vídeos de ladrão roubando carro e todas as fotos da festa passada que os amigos postaram.    

E continua no metrô. Antigamente sempre ficava uma aglomeração de paspalhos na frente das portas impedindo a saída dos passageiros. Hoje os paspalhos permanecem parados no mesmo lugar, mas com os fones no ouvido e com um aparelhinho nas mãos, a digitar com os polegares, alheios à necessidade de pobres trabalhadores desembarcarem e irem desfrutar o aconchego do lar.

No cinema, os jovens levam o aparelho celular (Ipad, Iphone, Smartphone, Tablet, seja lá que versão for) e enquanto o filme roda na tela eles vão postando mensagens e se curtindo reciprocamente. Uma entrada de cinema em São Paulo custa quarenta reais e os flashs dos aparelhos e as risadinhas abafadas faz você perder pelo menos vinte desses quarenta que pagou.

Já fiz dezenas, talvez centenas de viagens noturnas de São Paulo a Guaraçai, e vice-versa, e agora, por força das circunstâncias, muitas viagens ao Sul do país, o que significa dizer que passei muitas e muitas noites na estrada dentro de um ônibus. Sou uma pessoa fácil de pegar no sono, como se diz (certa vez numa viagem noturna para Aracaju, dormi enquanto o avião taxiava em Guarulhos e nem aquele frio na barriga que dá quando o avião salta na pista e se lança no ar me fez acordar), de forma que faço das poltronas de ônibus meu leito improvisado. Faço não, fazia. De uns tempos para cá não é mais possível dormir no ônibus porque seus vizinhos de poltrona navegam na intenet noite afora e a luz do aparelho celular incomoda as vistas e tira o sono. Não bastasse isso, tem sempre quatro ou cinco passageiros falando ao telefone e publicando suas vidas gratuitamente dentro do ônibus, tirando a concentração de quem tenta pregar os olhos. Por volta da meia-noite se faz silêncio, desligam-se os aparelhos e quando você pensa que finalmente vai cochilar, o ônibus faz aquela parada de rotina para descanso do motorista. O inferno recomeça. A primeira coisa que as pessoas lembram quando o ônibus pára é que têm um celular no bolso e voltam a ligar não se sabe para que espécie de criatura da noite que atende a um chamado de telefone à uma hora da manhã.  Mas é preciso ligar, é preciso dizer que o ônibus está saindo do Posto Alameda, é preciso dizer que a viagem está tranquila, que daqui a pouco ele está chegando. Um pequeno intervalo e lá pelas quatro e meia da manhã os telefones dos passageiros começam a tocar. São parentes querendo saber se o ônibus já chegou na rodoviária. Não, o ônibus não chegou, está em Itu ainda, quando entrar em São Paulo eu te ligo. E assim, como na canção do Roberto Carlos, outra noite se passa, eu retorno e fico sem graça...

Se as pessoas cultivassem a boa educação e respeitassem os direitos alheios, talvez o nosso inferno seríamos nós mesmos, com nossas intransigências e intolerâncias. Mas o mau comportamento do mundo à nossa volta, principalmente em tempos de alta tecnologia, faz com que, tanto no mais profundo teor da Filosofia Existencialista do senhor Sartre como no mero palpite de pessoas banais como eu, reconheçamos que realmente o inferno são os outros.

Angelo Humberto Anccilotto (Out/2014)