O MAR

 É verão. É tempo de férias. Há que se ir à praia. É preciso ir à praia. Por os pés na água do mar, molhar o rosto, ir um pouco mais a frente, esperar uma onda grande passar e mergulhar sobre ela – ou sob ela, conforme a habilidade de cada um. É preciso emergir do mergulho, apertando os olhos e o nariz, recuperar o fôlego, reequilibrar-se e ficar de pé esperando outra lambada de água na barriga ou nas costas.

É preciso voltar à areia e afundar os pés na terra granulada e sentar-se à sombra e olhar o mar. É preciso ver o corpo bronzeado das mulheres que transitam pelas  nossas vistas e depois se deitam sobre a toalha, estirados ao sol. É preciso ir ao quiosque mais perto e buscar uma cerveja gelada e bebê-la lentamente entre pensamentos e suor.

Mas é preciso, sobretudo, olhar o mar. Olhar longamente o mar até o último ponto cartesiano que desaparece na curvatura do planeta, e depois distrair-se com uma gaivota que flana no ar acompanhando um cardume desavisado que viaja na flor da água. É preciso subir e descer no balanço do pequeno barco que flutua sobre as ondas no mesmo solavanco de quem fosse à gincana do Rotary pela estrada do Moinho. É preciso levar a mão à frente dos olhos para ler contra o sol a publicidade ou a orientação da vigilância costeira no banner embandeirado nas guias do aeroplano que percorre a o orla. E depois avistar lá longe o transatlântico que vai a uns três quilômetros da praia. Antes desliza que navega sobre as águas e por um momento subir a bordo e seguir viagem com ele em demanda de outros portos.

É preciso olhar o mar e ondular-se com ele, alternando-se de bicho feroz a animal domesticado. Explodir com as ondas que arrebentam longe e acalmar-se na espuma que vem morrer na praia como pequenos tsunamis inofensivos a procura de amigos. Abstrair-se na imensidão das águas que separam continentes como um árbitro austero que apartasse no ringue o ímpeto dos contendores. É preciso levantar-se da areia, correr para água mais uma vez, vencendo pequenas correntezas e banhar novamente o rosto na água salgada, deixar que um modesto turbilhão passe sobre seu corpo e sentir o mar em você. 

É preciso, por fim, sair da água, calçar os chinelos, ir andando entre as pessoas sacudindo a areia dos pés. Atravessar o calçadão, cruzar a avenida costeira, dobrar numa esquina, penetrar na cidade, desaparecer, como um prisioneiro que retornasse à sua cela, deixando atrás de si toda a liberdade que o mar nos dá.   

 Angelo Humberto Anccilotto (Fev/2014)