O NÁUFRAGO DE BARRA VELHA

Na tarde quente, sem nenhuma ameaça de chuva, havia um cruzar de andorinhas em voos rasantes sobre as cabeças das pessoas na praia. No deck da piscina da pousada, os últimos raios fúlgidos do sol da liberdade que brilhava no céu da Pátria naquele instante chegavam furando a espessa folhagem da figueira no terreno ao lado, depois tangenciavam a areia e se lançavam  no mar deixando um rastro dourado na água.  Olhávamos a tarde e a tarde era esse sol poente e esse mar que arfava leve ao vento, eram essas pessoas que caminhavam banhando os pés nas ondas mais extensas e essas andorinhas que voavam como se se abanassem contra o calor. E a tarde também era esse homem que juntava folhas secas de palmeiras e amontava em torno de um toco de lenha de alguma antiga árvore que secara no mangue. 

Feito o maço de folhas e ramos secos em torno do pedaço de pau, esse homem, que devia ser catarinense do lado oeste do estado onde as verdes planícies dos pampas unificam Santa Catarina e o Rio Grande do Sul, tornando a todos gaúchos, ateou fogo e foi correr na praia levemente enfumaçada pela fogueira. Não era bem uma corrida, apenas um trote desajeitado como seria de se esperar de uma pessoa de mais de 50 anos com razoável protuberância abdominal. Correu cerca de 300 metros e voltou a cutucar os gravetos melhorando a chama que já se podia avistar de longe.

Que súbito instinto de náufrago se apossaria de alguém que, em plena praia movimentada, acendia o fogo como uma mensagem s.o.s. a algum navio em alto mar? Deixou a praia, subiu a rua onde havia estacionado um furgão, retirou de lá um espeto de carne, desceu com ele e colocou entre as chamas. Saiu novamente em trote pela areia e depois sentou-se ao lado do fogo, virou o espeto, serviu-se um copo de vodka e ficou aguardando. Minutos depois a carne deu sinal de assada. Sacou a faca da bolsa que mantinha a seu lado, abriu uma peça, tirou do espeto e comeu. Fez isso com todas as outras peças de carne que tinha no espeto, intercalando com goles graúdos de vodka. Fez sua refeição. Estava satisfeito? Dormiria na praia ao lado da fogueira?

Um homem numa cidade, ainda que uma cidade pequena e pouco conhecida, portando-se como sobrevivente de um naufrágio, servindo-se de carne animal, assada no fogo a beira mar, é uma imagem um tanto extravagante. A vida urbana e moderna nos faz náufragos de várias maneiras. Naufragamos na vida conjugal. Afundamos na vida profissional. Enlouquecemos. A fogueira na praia seria seu pedido de socorro a um galeão imaginário? Seu ritual prosseguiu com novo trote, desta vez dentro d’água. Em seguida deitou-se na beiradinha do mar e fazia exercícios abdominais, numa tentativa de acelerar a digestão da carne a pouco jantada. Voltou à fogueira, bateu com o espeto no toco que queimava, juntou mais folhas secas e subiu a rua até o furgão novamente. Voltou de lá com uma costela de boi espetada e fincou o espeto ao lado do fogo. Correu mais um pouco, fez novos abdominais, depois sentou, bebeu e deixou-se tomar pela noite que caía. Mais tarde comeu toda a costela assada.

Acompanhei todo esse ritual apoiado na mureta do deck da pousada, persegui cada movimento desse homem estranho que preparava da forma mais exótica o seu churrasco na praia, e o tomei mesmo por um náufrago urbano que encontrava na beira do mar uma esperança de salvação. Era uma terça-feira. Na quarta de manhã ainda se via o toco queimando na areia, mas o homem, fictício ou real, havia ido embora. Na quinta-feira de tardezinha ele reapareceu com a mulher, os dois sentaram na praia, comeram um salame que ele fatiava em rodelas com um longo facão de caça. Ela bebia coca-cola e ele bebia cerveja. Não era um náufrago. Ao menos de amor não parecia ser. 

 Angelo Humberto Anccilotto  (Jan/2014)