MUNDOS ESTRANHOS

Tem uma propaganda de carro rodando na televisão que é uma obra-prima da publicidade brasileira. Não é de qualquer carro, é do Fusca. O Fusca retorna ao mercado pela terceira vez. Pela terceira vez a Volkswagen readapta suas linhas de montagem para produzir um veículo que possui estreitos laços com os motoristas. É muito difícil encontrar uma pessoa na casa dos 50 ou 60 anos que nunca teve um fusca na vida. Foi tema de música: “Fuscão Preto!”. Ganhou um apelido que veio de um comercial das lojas do Silvio Santos: “Pois é, Pois é, se tivesse comprado um Volkswagem na Vimave...”

Pois essa propaganda de hoje faz exatamente esse apelo épico. Um repórter diz que está lá nos anos 1970 para saber a opinião do público a respeito do Fusca 2013. Ao que então uma mocinha se espanta: “2013? Então o mundo não acabou no ano 2000?” Até o Muçum aparece nesta peça publicitária. Vale a pena ver.

Não sei exatamente se a Volkswagem terá sucesso nessa terceira versão do carro que alguns consideram o mais popular do mundo.  Receio que os jovens de hoje não são muito ligados nas coisas dos tempos dos pais e dos avós. Penso que seria melhor ter criado um carro mais arrojado, algum modelo em que os motoristas se sentissem acelerando para o futuro e não dirigindo de marcha à ré, rumo ao passado. Mas isso são conjecturas para fóruns econômicos e não para esta coluna, cujas crônicas que publico aqui são como antigos fusquinhas humildes circulando entre a modernidade da nova ordem literária do mundo. 

Quando a moça pergunta se o mundo não acabou no ano 2000, a gente sente vontade de dar risada. Para os jovens de 1970, o ano 2000 representava a maior perturbação mental que superava inclusive a preocupação com a iminente terceira guerra mundial. A guerra a gente tinha esperança que não acontecesse, mas quanto a escapar do fim do mundo não tínhamos nenhuma garantia. Estavam lá as centúrias de Nostradamus e o Apocalipse de São João deixando nas entrelinhas um tempo demarcado para a grande Armagedon, que nunca soubemos interpretar direito quando aconteceria.  Colaborando com eles, vinha a crendice popular a impor um limite para aventura humana na Terra: “Mil anos passarão, mas dois mil não chegarão”, diziam os mais proféticos.

Pois bem, se eu pudesse responder à moça do comercial eu diria a ela que o mundo acabou sim. Estamos vivos ainda, mas aquele mundo lá de 1970, onde ela estava, não ultrapassou a barreira do ano 2000. Ele chegou agonizante na fronteira do século e não teve forças para ultrapassar. Em seu lugar construíram outro mundo cheio de tecnologia, com outros costumes, com outras profissões, com outras músicas, com outros esportes, com outros divertimentos e outras culturas. Tentam-nos seduzir a participar dessa maravilha moderna, enviam-nos convites para redes sociais, vendem-nos aparelhos de toda espécie que à noite, quando apagamos a luz para dormir, nossa casa fica salpicada de luzinhas verdes e vermelhas pulsando como pequeninos corpos celestes, capturados no espaço.

Sabe, moça, se eu participasse desse novo comercial do Fusca, eu seria aquele homem incrédulo que pergunta se o carro vem com rádio AM e FM. Porque eu pertenço àquele estranho mundo que acabou e vivo neste estranho mundo que construíram depois dele.

Angelo Humberto Anccilotto (Mar/2013)