VACAS BRAVAS

As cidades pequenas do interior são parecidas; á medida que avançamos pelo centro e seguimos rumo às vilas e bairros, há um ponto em que o asfalto acaba e começam rarear as construções, até que uma última rua projetada mas ainda inacabada delimita os contornos da  cidade. E nessa última rua, ou traçado de rua, começam a surgir as chácaras. Chácaras são frações de sítios, fragmentos minúsculos de fazendas. Protegidas por uma cerca e uma porteira, elas guardam uma casa razoavelmente confortável, onde tem sempre um cachorro dormindo embaixo de uma mangueira, um galo imponente cortejando quatro ou cinco galinhas, um ou dos cavalos pastando no gramado ao fundo, duas ou três vacas mantidas no curral pequeno para garantir o leite das crianças e o queijo dos adultos.

O dono da chácara mora no limiar entre cidade e o sertão e vive a ambiguidade de dois mundos distintos. Quando se põe a pensar na vida pela janela da sala, pensa por meio de uma perspectiva urbana, no IPTU, no conforto e nas conturbações comunitárias. É um habitante urbano sem asfalto, sem calçada e sem sarjeta. Quando vai à janela da cozinha pensa na vida pela perspectiva rural, traduzida em ITR, estiagem e produção agropecuária. É um micro produtor da roça contribuindo para a contabilidade agrária do país.

 Mas para quê dar esse rumo à conversa? E eu falava das vacas e de repente  o teclado foi plantando palavras na crônica e desviando o assunto. Falava dessas vacas que se vê ruminando sonolentas nessas chácaras bem perto das cidades. Vacas de pelo macio, sem chifres, arrastando o úbere no chão, carregado de leite. Há quase 40 anos que abandonei a roça e não acompanhei a transformação dos rebanhos brasileiros. As vacas daquele tempo não tinham raça definida. Brancas, pretas, morenas, malhadas, cinzentas, pintadas, de chifres grandes e pontiagudos, ferozes por princípio. Sempre tinha uma que na passagem das crianças levantava a cabeça e, assustada, investia contra presença dos moleques no meio do pasto. Meu grande medo da infância era o medo de vaca brava. Aquele medo que fazia correr e passar debaixo de fio de arame para o outro lado da cerca.

Eis-me adulto, valente, pronto para enfrentá-las e dominá-las, mas de quê me serve agora essa valentia se só encontro no caminho pequenas vacas dóceis, holandesas, mochas, mastigando infinitamente o seu capim, que nem se movem para me ver passar? As vacas se tornaram afáveis, acariciáveis, a vida é livre, não há mais o que se temer.

Livre? Nem só de vacas mansas se faz uma vida. Além de vacas há gente no mundo e há que se temer os homens, animais ferozes e primitivos que ruminam sua malevolência com a ração diária. Há que se fugir do homem que levanta a cabeça no meio do rebanho, investe ataca e mata. Há que se esconder do homem, bicho ainda não domesticado, que cada vez menos se deixa amansar. Meu grande medo de adulto é o medo do próprio homem.

Angelo Humberto Anccilotto