UMA CENA DE ANO NOVO

E como ano iniciasse muito quente e o quarto orbitasse como nave movida a vapor, saltei da cama, calcei o tênis e pus-me a caminhar pelas ruas recebendo no rosto, de vez em quando, um sopro de vento  que era  um conforto contra o sol que já se fazia forte às sete da manhã.  As ruas eram desertas, a cidade era uma grande ressaca do réveillon. Apenas um frentista solitário no posto de gasolina, aguardava sonolento um veículo desabastecido, e em frente aos edifícios de luxo os seguranças, como guardas do Palácio Real da Inglaterra, olhavam vagamente o horizonte. Como naquela canção do Zé Ramalho, a vigilância cuidava do normal.

Então, quando desci a Rua Dr. Rafael de Barros e convergi na Tutoia, uma moça sentada na porta da farmácia me pareceu alguém que, exausta da noite, descansava para recuperar as forças antes de voltar para casa. Ao som dos meus passos na rua deserta ela ergueu levemente o rosto, mas o suficiente para eu perceber que deduzira errado o seu comportamento. Vestida com uma calça branca e blusa estampada, trazia um semblante saudável como se sua noite da passagem do ano tivesse sido de comemorações moderadas. Na verdade dava para perceber que ela não vinha de festa nenhuma, mas emergira a pouco de uma noite de sono bem dormida. E às sete e meia da manhã se punha sentada na frente da porta da farmácia à espera que o gerente do estabelecimento viesse abri-la para o início do expediente. Farmácias dão plantão nos feriados e domingos; há muita gente sofrendo nesta cidade e é preciso vender remédios para curar os males do povo. É preciso vender aspirina para dor de cabeça, dipirona para febres e amoxilina para infecções agudas. Então a moça, operária a serviço da saúde do País, levanta cedo em pleno Ano Novo e vai cumprir pontualmente o seu horário de trabalho. E espera calmamente a porta se abrir, cabisbaixa, talvez absorta nos planos do ano que começa.

Sou uma pessoa que não se atreve a puxar conversa com desconhecidos e passo por ela sem sequer lhe desejar um bom dia ou um Bom Princípio de Ano Novo. Isso, entretanto, não quer dizer que do fundo do meu coração não tenha lhe enviado uma mensagem secreta de esperança. Mesmo sem dizer, sinto-me solidário com essa jovem a quem a vida não é apenas festa. Sua prontidão no posto de trabalho nas primeiras horas da manhã de um feriado é um ato comovente. Num tempo em que se valoriza cada vez mais as festejos, em que há bebida e comida espalhada em todo canto, num tempo em que operários reivindicam cada vez mais folgas e pontes nos feriados, há que se reverenciar uma moça que dormiu mais cedo que os outros para se por e pé antes do sol nascer e cumprir seu expediente na rua Tutoia em pleno feriado do Dia da Confraternização Universal. Que o fruto de seu trabalho lhe proporcione um ano feliz!   

ANGELO HUMBERTO ANCCILOTTO (Jan/2014)